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CAPÍTULO 20
ÚLTIMO
Alex e Daniel estão apaixonados um pelo outro. A mãe de Alex conversa com Daniel. Daniel toma uma decisão que mudará a vida dele e a de Alex para sempre.

 

Gasping - dying - but somehow still alive

This is the final stand of all I am

Please keep me in mind

Please keep me in mind

O outro dia era um domingo. Quase hora do almoço. Daniel e Alex dormiam, abraçados. Ali era o melhor lugar para se estar. Nunca estive tão perto do céu. A pele morena em contraste com a pele branca. Como se fossem o yin-yang. Eles eram dois, mas agora eram só um. Mas isso era só um instante no tempo. Um instante que podia ter durado pra sempre.

O telefone tocou. Daniel acordou meio assustado. Mas viu Alex dormindo ao seu lado. E sorriu. Eu te amo. Tanto, meu Deus. Esperei tanto por isso. Mas o telefone não queria esperar. Ele estendeu o braço e atendeu. Era a mãe de Alex. - Daniel, graças a Deus te achei! O Alex tá aí com você? Ele olhou do lado. Tá sim. E ouvia meio sem entender a voz urgente no telefone. - Aconteceu uma desgraça. O pai do Alex sofreu um enfarte. Quase morre. Ainda corre risco de vida. Vocês precisam vir pro hospital. Agora. Sim Dona Antônia. Fica calma. Estamos indo.

Ele respirou fundo. Ia ter que acordar Alex. E com uma notícia dessa. Era pesado. Sentiu o coração apertado. E também um frio na espinha. Era um mau pressentimento. Que Deus, se é que Ele existe, nos ajude. Alex acordou sorrindo. E o beijou. Pela última vez.

Os dois chegaram no hospital. Alex saiu desesperado pelo corredor. Encontrou o quarto. Queria entrar. Mas a mãe o parou na porta. Olhou para o pescoço dele, cheio de manchas. E sentiu o coração parar. Viu Daniel parado um pouco atrás. E ele também tinha as mesmas manchas no pescoço. As pernas dela fraquejaram. Meu Deus do céu. Então era mesmo verdade. Os dois estavam tendo um caso. Ela tinha vivido pra ver o próprio filho virando viado. Uma bicha. Um pervertido. Igual aqueles caras nojentos que aparecem na televisão nos bailes de Carnaval. Vestidos de mulher. Sangue do Cordeiro, me socorra.

Ela se sentia desesperada. Mas não podia perder a cabeça. Precisava pensar. E rápido. Tinha que ter um meio de impedir isso. Antes que isso matasse o marido dela de desgosto. Antes que a matasse também. Minha Nossa Senhora, o que as pessoas iam dizer? Ela sempre quis netos. Sempre sonhou com a casa cheia de crianças. Sentia saudade dos filhos quando eram bebês. Queria muito ver os netos. Ter bebês em casa de novo. E agora isso. Não, não podia ser. Maldita hora em que ela acolheu aquele drogado pervertido na casa dela.

- Mãe, o que aconteceu com o pai? E a voz de Alex era só um fio. Estava tremendo dos pés à cabeça.

- Ele está bem agora. Teve uma ameaça de enfarte. Mas já está sendo cuidado. Fica calmo. Respira e vai lá, porque ele quer ver você. Mas fica calmo. Olhou para o pescoço do filho. Pensa bem no que você vai falar pra ele. Não vai acabar de matá-lo. Que é isso mãe? Jamais faria uma coisa dessas. Assim espero.

Daniel ouvia a conversa meio aterrorizado. Porque estava começando a entender. Alguém tinha contado pro pai dele que os dois estavam juntos. Mas ninguém sabia. Quem poderia ter suspeitado de alguma coisa? O vizinho. Aquele maldito filho da puta. Que vivia vigiando ele. Devia ter matado ele aquela noite no bar. Meu Deus. Daniel encostou na parede se sentindo perdido. Ele só queria que se abrisse um buraco no chão pra ele poder entrar dentro e não voltar nunca mais.

Alex tinha entrado no quarto. E agora era a vez dele escutar. A mãe de Alex olhou pra ele. Daniel não sabia o que esperar. E nem o que responder. Nunca tinha estado em uma situação dessas. Ele sabia que era errado. Sabia que eles se entregaram em um momento de fraqueza. Um momento em que os dois estavam vulneráveis. Mas agora, já que tinha acontecido, ele ia querer sempre. Não sabia como ia poder viver sem aquele corpo. Sem os beijos. E sem todo o resto. Era a melhor coisa que tinha lhe acontecido. Pela primeira vez em toda a sua vida, ele se sentia completamente feliz.

A mãe de Alex olhou pra Daniel. Estava meio atordoada com tudo que estava acontecendo. E também não sabia por onde começar. Daniel, de cabeça baixa, esperava. Bom, ela ia ter que começar por algum lugar.

- Daniel, uma pessoa encontrou o pai do Alex na rua hoje de manhã e falou coisas horríveis de vocês. Que você e o Alex estão tendo um caso. Que vocês dois são viados. Ela sentia a garganta apertar. Meu filho, isso é verdade? Não minta pra mim. Nem sempre dizer a verdade era a melhor política. Mas dessa vez Daniel resolveu ser sincero. Não adiantava ficar mentindo.

- Foi uma coisa que aconteceu, Dona Antônia. Nós não pudemos evitar. Sinceramente, também não sei direito o que pensar nem o que fazer. Mas uma coisa eu posso lhe dizer. Eu amo o seu filho, de verdade. É a única certeza que eu tenho. Ele confirmou, meu Deus do céu. O que ele fez com o filho dela. Ela sentiu o chão fugir sob os pés. O coração disparava. Mas ela tinha que ser forte. Sua família dependia disso. Precisava salvá-los. Tirar aquela ameaça do caminho deles. - Então isso é recente? Sim, é recente. Ela não podia desistir. Respirou fundo.

- Pois bem, Daniel. Se você realmente gosta do meu filho como você diz que gosta, tem que se afastar dele. De uma vez por todas. Para sempre. Você tem noção disso que você está me falando? Você, apaixonado pelo Alex! Você e ele são dois homens, meu Deus! Isso é um pecado muito grave! Vocês quase mataram o pai dele de desgosto, você sabia disso? Foi por isso que ele enfartou. Mal deu tempo de acudi-lo. A sorte foi que ele conseguiu chegar em casa pra me contar. E você vai desgraçar a vida de todos nós. A minha. A do Alex. Do Tiago, uma criança que quase ficou sem o pai. Sim, o Tiago que ele gostava tanto. Como nós vamos viver? Como vocês vão conseguir viver, sabendo que tudo de ruim que acontecer daqui pra frente é culpa de vocês? Que é culpa sua?

Daniel não esperava por isso. Passou a mão no rosto. Agora sim, vinha na mente dele a enormidade do que eles tinham feito. Ele podia ouvir a mãe falar, lá no fundo da memória. Homem que deita com homem vai pro inferno, Daniel. É uma abominação aos olhos do Senhor.

Na verdade, Daniel se sentia uma abominação aos olhos do Senhor há muito tempo. Um drogado, um perdido. Era o que todos diziam. Provavelmente ele ia pro inferno de qualquer jeito. Mas Alex ainda tinha uma chance. Ele era uma pessoa boa. Não merecia isso. Não merecia ir pro inferno junto com ele. E se o Alex pegasse aquela doença? E se o pai dele morresse?

O coração dele estalava só de pensar na possibilidade de acontecer algum mal para o amigo. Por causa dele. Meu Deus. Como ele podia ter sido tão irresponsável. Ele sabia que era um pecado. A mãe tinha lhe avisado. E agora, quase matam o coitado do velho. Por uma fraqueza. Por algo que nunca deveria ter acontecido.

Daniel se sentia a pior das criaturas. E dona Antônia estava ali na frente dele chorando. Sim, ele podia ter acabado com a vida de todos eles. O que ele estava fazendo? Tinha perdido a cabeça? Sentiu a vista escurecer e pela testa corria um suor frio. Mas sim, ele sabia o que tinha que fazer dali pra frente. Pelo bem de todo mundo. Pelo bem do Alex. Porque ele, Daniel o amava. Respirou fundo e respondeu quase num sussurro:

- Não se preocupe dona Antônia. A senhora tem razão. Me perdoe. Vocês nunca mais vão ouvir falar de mim. Desejo melhoras para o seu marido. Se puder, reze por mim.

E depois de dizer isso, ele não queria ouvir mais nada. Agora que ele tinha se decidido, só queria fugir dali. Fugir, pra bem longe. O mais rápido possível. E sem olhar pra trás. Antes que mudasse de idéia. Antes que o Alex saísse do quarto. Porque se ele o visse, perderia a coragem. Virou as costas e saiu quase correndo. A mãe de Alex não esboçou o menor movimento para impedi-lo. Era melhor assim.

Daniel saiu do hospital tropeçando. Ele se sentia como se tivesse sido escorraçado. Talvez isso não estivesse tão longe da verdade. Não estava enxergando nada. As lágrimas corriam e pingavam no chão. Chegou em casa e colocou as roupas na mochila. Pra onde ia? Não fazia ideia. Olhou os discos. Os livros. O violão. Não, ele não ia levar nada disso com ele. Não adiantava. Ia ocupar espaço na mochila. Que jogassem tudo fora.  

Ele precisava tomar um banho. E esfregar a pele até sangrar. Mas nunca ia poder tirar a marca que ele tinha deixado. O corpo ainda lhe doía do amor que tinham feito. Mas a dor maior vinha da alma. E essa era quase insuportável. Ele só tinha vontade de deitar no chão e ficar lá até morrer.

Uma vez tinha ouvido falar que as pessoas não morrem quando devem, mas quando querem. Ou devia ter sido em algum livro que tinha lido. Ele não se lembrava. Mas isso não era verdade. Porque ele ainda estava ali, respirando. Ainda estava vivo. Mesmo não querendo. Foi tomar um banho. Sentou no chão do banheiro, embaixo da água, e chorou. Chorou tanto que pensou que ia arrebentar. Mas não podia ficar ali pra sempre. Ele tinha prometido pra ela. Continuava sem enxergar nada na frente dele. E agora estava pior, porque além do desespero o estar cegando, os olhos inchados não ajudavam em muita coisa. Mas conseguiu chegar na rodoviária.

Onde seria o lugar mais longe dali? Ele lia os letreiros meio confuso. Salvador, pensou. Dali ele podia ir pra ainda mais longe. Como o Dean Moriarty. Não. A vida não era como nos livros. A vida era uma desgraça. Dava com uma mão e tirava com a outra. E as pessoas ainda falavam de Deus. Deus o caralho. Deus nunca tinha gostado dele. A vida inteira só levando bordoada. E agora isso. Respirou fundo. Não era hora de ter pena de si mesmo. Não ainda.

Chegou no guichê. O homem olhou pra ele meio desconfiado. Meu filho, você está passando mal? Quer ajuda? Não. Quero uma passagem pra Salvador. Só de ida. O outro olhou a mochila pendurada nos ombros de Daniel. Moço, são 36 horas de viagem. E você vai só com essa mochila? Daniel ficou impaciente. Tem parada não tem? O que precisar eu compro no caminho. O homem se desinteressou. Tá certo. Eu não sou seu pai. Daniel olhou pra ele. De repente até podia ser. Podia ser qualquer um. E ele nunca ia saber. Mas foda-se. Quanto é? Pagou a passagem. O homem olhou para o relógio e disse: Menino anda logo porque o ônibus vai sair daqui a 20 minutos. Plataforma 3.

Daniel entrou no ônibus. Seu lugar era na janela. Perfeito. Ia ser uma longa viagem. Mas ele não via nada. Só um rosto.

Well I wonder

Well I wonder

Please keep me in mind

Oh, keep me in mind

Keep me in mind

Alex saiu do quarto. Viu a mãe rezando no corredor. Olhou em volta. Cadê o Daniel? Foi embora. Alex estranhou. Embora? Será que aconteceu alguma coisa? Vou falar com ele. A mãe o segurou pelo braço com uma força que ele nunca tinha visto antes. Seu desgraçado. Você quer matar o seu pai? Ele foi embora. De uma vez por todas. Esqueça isso pelo amor de Deus. Seja homem. Pelo menos uma vez na sua vida.

Alex olhou pra ela aturdido. Meu Deus do céu, ela sabia. E ele amava Daniel mais que tudo no mundo. Mas também não queria fazer mal ao pai. Ele tinha que se resignar. Os pais dele sabiam o que era melhor pra ele. Sempre tinha sido assim. E agora não ia ser diferente.

E ele sabia que aquilo era um pecado. Que era errado. Poderia ter matado o pai. Por conta de uma coisa que nunca deveria ter acontecido. Uma fraqueza. Ele queria morrer só de imaginar uma coisa dessa. E se o pai não tivesse aguentado? Ele não ia conseguir viver com um peso desses nas costas. A mãe tinha razão. Abaixou a cabeça. Como sempre. Sim. Ele tinha entendido.

Sim, tinha sido bom demais pra ser verdade. Foi só um sonho. Mas seria um sonho que ele nunca ia esquecer. Nunca mais amarei ninguém como amo você. Tenha certeza disso Daniel, onde quer que você esteja. Sentou no chão e chorou. Lágrimas que ele veria cair muitas vezes ainda, enquanto vivesse.

 

Epílogo

 

Mas nada vai conseguir mudar
O que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você

  1.  

Alex.

Meu nome é Alex.

Me acho um cara de sorte. Me casei. Com a Jéssica. Meu filho vem logo. Estamos acabando de reformar nossa casa pra chegada do bebê. Eu acho que eu estou muito bem até. Não posso reclamar.

A estrada era um tapete. E estava um dia lindo lá fora. Alex estava animado. Tudo ia bem. Ia fechar outro contrato. Sim, a comissão seria boa. Logo eles iam terminar de reformar a casa. E o bebê ia nascer. Ia ter um filho. A mãe estava quase estourando de felicidade. Saía todos os dias com Jéssica pra comprar coisas para o bebê. O berço. As roupinhas. Vai ser um menino. E vai se chamar Gustavo. Ele estava ansioso por isso.

Quase feliz. Resolveu ligar o rádio. Previsão do tempo. Propagandas. E a voz metálica do locutor. Com vocês, Por Enquanto. Legião Urbana.

Alex estacou. As notas da música, tão familiar, encheram os seus ouvidos, se espalharam pelo carro e escureceram o mundo. E aquele rosto apareceu na mente dele, sorrindo, surgindo devagar, quase pedindo desculpas por ocupar espaço. Daniel. E Alex sentiu as lágrimas correndo até pingar na camisa. Não estava enxergando mais nada. Precisou parar o carro no acostamento. E ali parado, encostado no volante, chorou desesperado. E por muito tempo. Não conseguia mais parar.

Sentia-se ferido, de uma dor que nunca passaria. Nunca. Ele podia muito bem cair morto ali no chão, e talvez então aquela dor diminuísse um pouco. Mas só um pouco. Porque ele sabia que nunca ia esquecer. Só tinha aprendido a viver com aquele segredo na memória. O gosto daquela boca. Aquele corpo sobre o dele. Nunca mais teria aquilo de novo. E chorar não adiantava. Mas aquilo ia doer pra sempre. Como no primeiro dia. Até ele morrer.

Fim.