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CAPÍTULO 19
PENÚLTIMO
Um amigo de Alex oferece-lhe um cigarro de maconha. Alex aceita, mas enfrenta a oposição de Daniel. Jéssica sente ódio de Daniel. Daniel leva Alex para a sua casa. Alex fica triste com a situação precária do amigo.

 

É que eu preciso dizer que eu te amo

Te ganhar ou perder sem engano

Eu preciso dizer que eu te amo tanto

Passou o Natal. E o Ano Novo. Daniel já não estava mais com a Patrícia. Ela chorou um pouquinho, mas disse que ficaria bem. E também disse que estava confusa com o que sentia. Não tinha certeza se gostava dele. É porque você não experimentou, querida. Senão não ia aguentar ficar sem.

Alex também já estava ficando entediado. Ia terminar com a namorada. Não queria enganar ninguém. Nossa, ele tava ficando que nem o Daniel. Pulando de galho em galho. É que o galho que ele queria pular e ficar ele não podia. Meu Deus, preciso parar com isso.

Um dia no trabalho, um conhecido o chamou de lado. Cara, você já experimentou um baseado? Eu não cara, que é isso. Você tá louco? Fica frio mano. É de boa. É natural, você não vicia. Se você quiser eu tenho. É só falar. Depois a gente acerta.

Alex ficou vários dias pensando naquilo. Era natural, o cara tinha dito. E ele ficou com vontade de experimentar. Só pra sair da rotina. Comprou. Mas não ia fazer isso sozinho. Falou pro Daniel. E só faltou apanhar. Você tá louco cara? Você não viu o que eu passei? Começa assim. Você é idiota? De onde você tirou isso? Quem te vendeu? Vou dar uma surra nesse cara.

Alex começou a ficar irritado. Nunca pedia nada pra ele. E quando pedia, era isso. Ele não ia fazer nenhuma besteira. Só queria ver como era. Esperou Daniel esbravejar, então disse: Beleza cara. Se você não quiser vir comigo, vou fazer isso sozinho. Não tem problema. Daniel ficou espantado. O que foi que deu nele? Não, ele não ia fazer isso sozinho. Daniel não ia deixar. Tá bom cara, se é isso mesmo que você quer. Eu vou com você.  Vamos marcar um dia.

Combinaram um dia. Seria no sábado. Daniel tinha pedido para o seu José, pra trocar o dia da folga. Como ele nunca pedia nada, o homem ficou sem jeito de recusar. E concordou. Ele iria na casa do Alex bem cedinho. Aí eles teriam o dia inteiro. Falaram para os pais do Alex que iriam acampar no fim de semana. Sim, vai um pessoal. Vai ser legal. Mas qualquer coisa mãe, volto no mesmo dia. No mais tardar no outro. Não acho que leva dois dias. Então tá bom filho. Tenha juízo.

Onde iriam? Daniel refletiu. Ia ter que levar o Alex pro quartinho onde ele morava. Ele nunca tinha levado ninguém lá. Mas não podiam arriscar de trombar com a polícia. Ele não sabia se era uma boa idéia. Afinal, o vizinho ainda estava vigiando ele. Sempre via o vulto dele na janela. Um dia arrebento esse cara na bordoada. Mas enfim. Ia ter que ser lá mesmo.

Avisou o Alex. E este ficou surpreso. Finalmente ele ia saber onde o Daniel morava. Não que ele já não tivesse se oferecido pra conhecer. Mas Daniel sempre respondia: cara não tem nada lá. Melhor a gente ficar na sua casa mesmo. E ficavam por isso. Mas agora era diferente. Ele não tinha alternativa. No quartinho era mais seguro. Ninguém ia encher o saco deles.

O dia chegou. E Daniel bem cedo bateu na porta da casa do Alex. Jéssica ouviu bater palmas e foi espiar. Ficou olhando o movimento. Ainda sentia muito ódio dele. Já tinham se passado dois anos, desde o dia que aquele drogado maldito tinha aparecido pela primeira vez na escola. E mudado a vida deles. Já tinha acontecido tanta coisa, e aquele cara não desgrudava. E nem ela esquecia do Alex. Era o amor da vida dela.

Ela tinha namorado outros caras, mas nunca chegou nem perto de sentir por nenhum deles o que sentia pelo Alex. E se guardava pra ele. O primeiro beijo não tinha podido ser, mas a primeira vez como mulher seria. Ela tinha esperado a vida inteira por ele. Mas não podia esperar mais. Já era hora de fazer alguma coisa.

Eles já tinham terminado a escola. Talvez Alex até se mudasse de cidade pra estudar. E ela tinha certeza que o drogado ia atrás dele. Se ela não fizesse alguma coisa agora, ela poderia perder ele para sempre. Mas o que ela poderia fazer? Ficou pensando muito tempo. E teve uma idéia. Todo domingo, o pai do Alex ia à feira. Ela ia lá também, e ia aproveitar pra falar algumas coisas. O que ela tinha visto no pátio aquele dia, por exemplo. Ah sim, ela ia. Desse a merda que desse. Ela estava cagando pra isso. Ela só sabia que do jeito que estava, não podia ficar. Mas não mesmo.

Daniel entrou no carro e saíram. Então ele sugeriu que os dois passassem no mercado antes. Comprar comida. Você não sabe a fome que dá depois. E um vinho. Vinho? Mas são só oito horas. Vamos ter o dia todo. Tá bem. Chegaram na casa. Milagrosamente o vizinho não estava na janela. Devia estar dormindo. Perfeito. Daniel tinha pedido pro Alex estacionar o carro mais pra trás. Assim, ninguém iria desconfiar de nada. Ótimo.

Os dois estavam se sentindo muito nervosos. Alex achava que ia enfartar de expectativa. Eles nunca tinham ficado sozinhos antes. Entraram. Alex olhou ao redor se sentindo meio confuso. E com o coração apertado. Meu Deus. Então era daquele jeito. A cômoda com as roupas. A geladeirinha. Não tinha mesa. Nem cadeiras. Um fogareiro. Uma garrafa térmica. Um armarinho com as coisas de cozinha. A vitrola com os discos. Os livros. Reconheceu alguns na pilha. Um cinzeiro. Não tinha idéia que ele vivia dessa forma. Por que ele não tinha lhe contado? E então era por isso que ele não queria receber o amigo em casa. E ao pensar isso, Alex se comoveu. Mas agora que ele sabia, talvez pudesse fazer alguma coisa.

Alex colocou as compras no chão e sentou no colchão. Era de casal. Será que ele já tinha levado alguma menina pra lá? Provavelmente. Daniel sentou do lado dele no colchão. Você tá bem cara? Tô de boa. Vamos acender. O cheiro era familiar. Mas Daniel não gostava muito. Preferia outra coisa. Fumou só pra mostrar pro amigo como era. Alex experimentou. Então era isso. E começou a rir. Mas o outro estava sério. Bebia o vinho que eles tinham comprado. E logo a garrafa estava pela metade. Alex se esparramou no colchão. E o outro deitou do lado. Aquela boca tão pertinho. Podia sentir a respiração dele. O cheiro. Estava se sentindo anestesiado.

Daniel olhava pra Alex e pensava. Sim, era amor. Daniel o amava como nunca amaria mais ninguém em toda a sua vida. Ele tinha certeza disso. O rosto dele era único. O sorriso aberto. Os olhos grandes. Era só os dois naquele quarto, e o mundo lá fora. No que lhe dizia respeito, ele poderia cair morto ali mesmo naquele instante, que a vida dele teria valido a pena. Nunca mais seria feliz daquele jeito. Queria se deitar sobre ele. Sentir o calor daquele corpo. Beijá-lo. Ver os olhos dele se fechando de desejo. Mas não se atrevia.

Mas então, de repente, foi Alex que o beijou. Ele não agüentava mais. A maconha tinha lhe tirado o receio. Desde aquele dia que o tinha ouvido cantar no pátio pela primeira vez, ele queria aquela boca. Ele sentia aquela fome há muito tempo. E não podia resistir. Passou os dedos pelo pescoço de Daniel. Aquela pele tão branca. Tão diferente da dele. Sentiu ela se arrepiando ao toque dele. Os lábios tão vermelhos. Tão macios. Gosto de cigarro e vinho. Queimava. Sentia as mãos dele correndo pelo seu corpo. Sim. Ele também queria. Vou morrer. Não acredito que isso está acontecendo.

Alex começou a despir o amigo aos poucos. E Daniel estava fazendo o mesmo com ele. Lentamente. Alex estava maravilhado com o que via. Como ele tinha esperado e sonhado com isso, meu Deus. Como ele queria tocar naquele corpo branco. Ver como era. Cada centímetro daquela pele. Que ele amava tanto. O contraste dos pelos escuros. As mãos longas. O cheiro. O gosto. E o resto.

E os dois se amaram de todos os jeitos possíveis. Tinham esperado por muito tempo para se negarem algo. E era uma dor. Mas era a melhor dor que alguém podia sentir. Alex quase queria machucá-lo. Morder aquela pele tão quente. Tão macia. Tocar aquele rosto tão amado por tanto tempo em segredo. Aqueles cabelos lisos que caíam pela testa. Era como se fosse um sonho. O suor escorria pelas suas costas. E a voz de Daniel era como um eco distante.

Eu te amo.