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CAPÍTULO 18
ANTEPENÚLTIMO
Daniel começa a namorar Patrícia. Chega o dia do baile de formatura. Jéssica pensa em Alex. Daniel se sente feliz e agradecido a Alex por ter terminado o ensino médio. Patrícia quer passar a noite com Daniel, que se sente confuso.

 

Amigo é coisa para se guardar
Do lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Final de ano. Daniel finalmente tinha passado de ano na escola. Ele tinha terminado o colegial. O pessoal ia fazer um baile de formatura. E sim, ele iria no baile também. Todo mundo se sentia empolgado. Até os professores. Esse tinha sido um ano difícil de passar. Mas tinha passado, afinal. Ele gostaria de contar a novidade pra mãe dele. Ei, eu não sou o fracassado que você pensa que eu sou. Mas ela estaria pouco se importando. Ela tinha outra família agora. Se bem que ele também nunca tinha se sentido parte da família dela. Estava ali, e era tudo.

Jéssica ia no baile com o namorado. Saiu com a mãe pra comprar o vestido. Mas a empolgação do momento tinha uma nota amarga. Aquela seria a sua grande noite com Alex. A noite em que eles se beijariam pela primeira vez. Uma noite que ela esperou por anos. Mas isso não ia acontecer. Era mais fácil ele beijar o drogado. Mas não adiantava ficar remoendo isso também. A mãe cortava-lhe o fio dos pensamentos. Filha, você prefere o azul ou o verde?

Alex estava ficando com uma menina. Acho que vai ficar sério, ele dizia. Ia levá-la ao baile. Daniel também tinha achado uma menina pra fazer companhia pra ele. E essa até que não era tão ruim. Até gostava de Legião Urbana. Mas Legião era uma febre, não tinha quem não gostasse. Não vou ficar pondo defeito na menina. Ela é legal. E por incrível que pareça, eles ainda não tinham transado. Ela era virgem e ele estava respeitando isso. Se o Alex soubesse, ia rir uns três dias. Nem ele mesmo acreditava que estava sendo capaz de uma coisa dessas. Mas estava.

E ele ainda pensava demais no Alex. Mas estava conformado. Ele devia ter confundido as coisas. Estava carente. Vulnerável. Porém, ele seria capaz de cortar o próprio braço pelo Alex, se lhe pedissem. Pensava naquele sorriso sincero. Nos olhos enormes que se espantavam ao ver a vida passando tão depressa. No carinho e na preocupação que sempre demonstrou sentir por ele. Daniel levaria isso pelo resto da vida consigo. Essa era a única certeza que ele tinha.

Alex, do seu lado, sentia alívio em ver as coisas dando tão certo para o amigo. Daniel tinha passado de ano. Estava se entendendo com uma menina. Até onde ele sabia, também nunca mais tinha usado drogas. Bebia pouco. E estava com um ar mais feliz. Sorria mais. E ele ficava tão lindo quando sorria. Aí ele sentia uma certa saudade. Pensava naquela noite do telefone. Um dia chegou até a se tocar pensando naquilo. Daria qualquer coisa pra ouvir aquela voz gemendo pra ele de novo. Queria mais do que tudo ter aquele corpo nos braços. Sentir o gosto daquela boca. Sim, Alex gostava das meninas. Sentia atração por elas. Mas pensar no Daniel era uma coisa insuportável. Doía-lhe fisicamente. Mas se abrisse a boca, ia estragar tudo. Era um segredo. Que ele mal contava pra si mesmo.

E tinha chegado o grande dia. Primeiro, a recepção, a entrega dos diplomas. A gordinha foi a oradora da turma. E Daniel espreitava pelo canto dos olhos. Eita, até que essa tinha onde pegar. Que peitos. Desviou os olhos. A menina com quem ele estava quis saber por que ele estava sorrindo. Nada não, lembrei de uma piada aqui.  

Ao subir ao palco para pegar o diploma, olhou para Alex. Devia isso a ele. Alex sorria. A mãe dele também. Até o pai dele aplaudiu. Tiaguinho estava tentando colocar uma bolinha de papel no cabelo da senhora da frente. Esse moleque era um capeta mesmo. Estavam todos felizes. Nem em seus sonhos mais loucos, Daniel podia imaginar viver um momento assim. Na verdade ele nunca achou que viveria o bastante pra isso. Ou que conseguiria.

Os pais estavam se retirando do salão. Ia começar o baile. As meninas já tinham trocado a roupa da formatura pelos vestidos de festa. Uma confusão de saias, decotes e perfumes se alastrou pelo lugar. As pessoas falavam alto. Estavam todos entusiasmados. E a banda começou a tocar. MPB. Tá, não vou reclamar disso. Podia ser bem pior. Podia ser pagode. Aí não ia ter conserto. Mas para a tristeza de Daniel e Alex, sim, a banda tocou uns pagodes. Que desgraça.

Daniel observava os caras que iam e vinham em um movimento familiar. Dessa vez não era no banheiro. Os seguranças ficavam de olho, porque tinha muito menor de idade lá dentro. Podia dar uma merda sem tamanho. Aí o pessoal ia cheirar lá fora. E ele que era o drogado. Tá certo. Alex acompanhou-lhe o olhar. E tocou no seu braço. Você tá bem cara? Sim, estou. Calma, tá tudo bem. Estou acompanhado. Tenho que levar a Patrícia pra casa. Não, não vou fazer besteira.

O pior não era levar a Patrícia pra casa. Era saber que a Patrícia aquela noite esperava algo mais dele. Que eles transassem. Ela já tinha lhe dado um monte de indiretas. Mas Daniel não queria. Era capaz dela achar que estava apaixonada por ele. Até agora, ela não tinha falado nada disso. Só tinha falado que gostava. E gostar não é amar. Mas e se ele transasse com ela? Fosse o primeiro? Era perigoso ela acabar fazendo besteira que nem a outra. Porque ele sabia que aquilo não ia durar muito tempo mais. Já estava começando a ficar entediado de novo. Estava em uma situação difícil.

A noite tava passando. Daniel estava ficando cada vez mais impaciente. Queria ir embora logo. E não ter que transar com a Patrícia. Ele recusando uma foda. Meu Deus. Tinha vivido pra ver isso. É, ele tinha mudado mesmo. Olhou pro palco. A vocalista anunciava: Agora, Canção da América.

Daniel ficou parado prestando atenção na letra. E olhou para o Alex. Sim, ele não sabia como ia ser dali pra frente. Tinha medo do futuro. E ficou triste ao pensar nisso. Patrícia percebeu a nuvem no rosto dele e o abraçou. Mas Daniel estava começando a se sentir cansado. O que ele mais queria era tomar um banho e dormir. Alex, do lado dele, ouvia a música e sentia a mesma coisa. Uma tristeza doce que não tinha nome. A vida ia separá-los. Mas eles não tinham o que fazer.   

A sorte é que a namoradinha do Alex começou a ficar com dor de cabeça. Devia estar passando mal. Tava até branca. Alex chamou Daniel de lado. Cara, eu acho que ela misturou bebida. Ela não tá bem. Vou levar ela embora. Era a deixa. Leva a gente também cara. A Patrícia mora longe. Ele podia ler o desapontamento nos olhos da menina. Daniel se sentia tão aliviado com isso que começou a assobiar. E pensou: Querida, acredite em mim. Isso é pro seu próprio bem.

Alex foi levar primeiro a namorada em casa. Do carro, Daniel ouvia ele falando no portão da casa da moça. Você vai ficar bem amor? Vou sim. Eu te ligo amanhã pra saber como você está. Eu espero. E o silêncio. Deviam estar se beijando. Logo ele entrou no carro. Vamos levar a Patrícia. Ela fez um cara triste. Daniel não disse nada. Querida, podia ser muito pior. Agradeça as pequenas bênçãos. Credo, era a mãe dele que falava isso. Mas que caralho.