Reis da Arena

CAPÍTULO 02

SOBRE O CAPÍTULO

Darcy pressiona Bartolo a se separar de Emilis. Gaspar se nega a se abrir com Hilda.

MEGAPRO                                                                2018

 

 

REIS DA ARENA

 

CAPÍTULO 02

 

WEB NOVELA DE: Lucas Oliveira
ESCRITA POR: Lucas Oliveira

 

PERSONAGENS DESTE CAPÍTULO:

HILDA
GASPAR
KADU
JOSEFA
EMILIS
HORÁCIO
BARTOLO
PIETRO
LETÍCIA
GEORGE
IGOR
RAFAELA
NEON
GINA
ZANDER
ELIAS
DARCY
MARIELA
ULISSES
EDSON
LALÁ
ZETINHA

 

 

CENA 01. CASA DE JOSEFA. SALA DE ESTAR. INT. NOITE.

Continuação imediata do capítulo anterior. Kadu, sentando, fala ao celular.

KADU: Então tá fechado, Fausto! Quando você estiver pra chegar, me avisa! Abraço!

Kadu desliga. Josefa vem de dentro.

JOSEFA: Tava falando com quem, meu filho?

KADU: Fausto Araújo.

JOSEFA: E quem é esse?

KADU: Um grande empresário, mãe. O conheci na temporada que passei em São Paulo. Hoje ele tá nos Estados Unidos e já revelou peões de vários cantos do Brasil.

JOSEFA: E eu posso saber qual seu interesse nisso, Kadu?

KADU: A senhora quer mesmo saber?

JOSEFA: Claro! Sou sua mãe e sua parceira, cúmplice. É bom você sempre tá lembrado disso! (T) Então, o que realmente você tá planejando, hein?

KADU: Bom, eu liguei pra ele, contei que aqui em Touro Bravo os rodeios é a marca registrada da cidade, que tem peões muitos talentosos... O mandei vim aqui conferir!

JOSEFA: Cê tá maluco?! Kadu, com o talento que o Gaspar tem, se esse Fausto o vê na arena, vai levar ele pros Estados Unidos em dois tempos.

KADU: Deus te ouça! Estarei ajudando o Kadu, fazendo uma boa ação. Espero que ele seja grato a mim pelo resto da vida. (Riso).

JOSEFA: (Sorri) Ah, agora eu tô começando a entender suas intenções.

KADU: Eu não dou ponto sem nó, Dona Josefa.

JOSEFA: Eu sei que a proposta será tentadora, mas o Gaspar não me aparece tão ambicioso assim. Ele mostra ser bem conformado com tudo que tem.

KADU: Talvez não vá por total vontade, mas por necessidade. Planejei tudo, cada detalhe. E eu aposto que ajuda a Hilda, ele não vai pedi. O orgulho dele não vai deixar. Sou ou não sou um gênio, mamãe?

JOSEFA: Cria minha...

KADU: Não, cria do mundo! O mundo me ensinou a ser esperto. Só os espertos sobrevivem e se dão bem!

Em Kadu, sorrindo maliciosamente. CORTA PARA/                                                                

 

CENA 02. TOURO BRAVO. EXT. NOITE.

SONOPLASTIA: Simplicidade – Pato Fu

PANORAMA da pequena cidade. AMANHECE. CORTA PARA/

 

CENA 03. CASA DE PIETRO. COZINHA. INT. DIA.

SONOPLASTIA OFF. Pietro desempacotando caixas de objetos domésticos. Bartolo à mesa.

BARTOLO: Sua casa tá ficando arrumada, bonita demais. A sua cara! Apesar de sua mãe não concordar, e eu também não, mas diferente dela, eu apoio. Se você quer e precisa do seu canto, das suas coisas, e a gente pode ajudar nesse seu voo, não vejo nada demais.

PIETRO: Pois é, pai. E as maiorias dessas coisas estão sendo compradas com meu dinheiro. Dinheiro do meu trabalho, que veio do meu esforço lá na filial. Me sinto meio que me desgarrando. Não que vocês me sufocassem, mas ali dentro, naquele clima, era inevitável eu não me senti assim.

BARTOLO: Eu te entendo perfeitamente, Pietro. Já me senti assim diversas vezes... (T) Bom, mas e essa tal de Lalá?! Eu a achei simpática, legal, humilde. Quando ela veio aqui, me pareceu que ela ama muito você. E eu fico feliz! A sua mãe que não gostou muito, mas também sua mãe não gosta de ninguém.

PIETRO: A Lalá é perfeita, pai! Eu tirei a sorte grande e tenho muito que agradecer. Se não fosse o aplicativo, eu não teria conhecido minha manteiguinha.

BARTOLO: (Ri) Manteiguinha?

PIETRO: É. É porque ela é tão doce, frágil, sensível. Chora, se emociona com qualquer coisa. É uma fofa, pai. É preocupada, compreensiva, gosta de cuidar, cozinha que é uma beleza. Aí por ela ser assim, tão fofa que me dá vontade até de botar em um potinho, eu a chamo de manteiguinha.

BARTOLO: (Riso) Ah, que lindinho!

PIETRO: (Ri) Besta! Eu também tenho um apelido que ela me deu. Mas é só entre a gente. Desculpa meu pai, mas não conto.

BARTOLO: Oh, meu filho. Eu fico muito feliz de te vê assim, apaixonado. Sei que você sempre quis construir uma família, mas tinha que encontrar a mulher certa e pelo que eu via, você achava que essa mulher não existia.

PIETRO: E não existe mesmo! Ou pelo o menos, quase não existe. Por isso disse que fui sortudo em ter encontrando uma como a Lalá. Porque mulheres do tipo dela, tão em extinção. É a mulher ideal pra mim, pra eu caminhar junto, sabe?! Aí, como ela tem que fazer faculdade e aqui tem, tudo veio a calhar e eu já tratei de conseguir meu canto e chamar ela pra morar comigo.

BARTOLO: E tenho certeza que será apenas o começo de uma vida juntos.

PIETRO: Eu também tenho! (T) Eu penso nela vinte quatro horas. Quando a gente se liga, é uma vida pra desligar. Não tem jeito, pai. É minha alma gêmea. Eu sei que ela vai cuidar de mim e eu dela. Um cuida do outro. E quando eu vejo ela daquele jetinho... Putz, só me dá vontade de cuidar, de proteger, de fazer ela se sentir segura.

BARTOLO: É muito bonito tudo isso, meu filho. Mas sei lá. Tenho a impressão e acho que hoje em dia isso é visto como um relacionamento machista.

PIETRO: Bom, se gostar de cuidar, abrir a porta do carro, segurar um peso pra ela, passar segurança e firmeza, é ser machista, então eu sou! E não sou só isso, porque ninguém é só um rótulo. Sou muito mais!

BARTOLO: Você é um filho de ouro!

Bartolo e Pietro sorriem um para o outro. Em Bartolo, o admirando. CORTA PARA/

 

CENA 04. MANSÃO SANTANA. JALA DE JANTAR. INT. DIA.

Hilda e Horácio, à mesa, tomam café da manhã.

HORÁCIO: Se você achou o Gaspar estranho, vai até a casa dele e pergunta o que foi, minha filha. Eu não percebi nada.

HILDA: Ah, pai. Os homens não tem a mesma perceptiva de nós mulheres. Quando o Gaspar mudou de humor, eu notei logo. Foi imediato!

HORÁCIO: De qualquer forma, é melhor ir lá tentar saber dele o que aconteceu, do que ficar aí supondo coisas.

HILDA: Mas eu não disse o contrário. É exatamente isso que eu vou fazer! (Saboreando a comida) Humm! Esse pão de queijo tá uma delícia, né?! A Zetinha arrasa!

HORÁCIO: Como o dela não tem igual!

Zetinha vem de dentro.

ZETINHA: Licença, Hilda. O Kadu tá aí.

HILDA: O Kadu?

ZETINHA: Sim. Tá lá na sala.

HILDA: Pode deixar que eu já vou lá, Zetinha!

Hilda se levanta e sai rapidamente. CORTA RÁPIDO PARA/

 

CENA 05. MANSÃO SANTANA. SALA DE ESTAR. INT. DIA.

Kadu sentado no sofá. Hilda vem de dentro. Ele levanta.

HILDA: (Cumprimentando-o) Meu amigo, eu tava doida pra falar com você. Foi até bom cê ter vindo logo aqui. Queria te pedi desculpa por ontem.

KADU: Magina, Hildinha. Não aconteceu nada.

Os dois sentam-se lado a lado.

HILDA: Aconteceu sim! Você foi pra festa ontem, e eu nem te dei atenção. Tava tão preocupada pra que tudo desse certo, que não chovesse, que o Gaspar se divertisse, que/

KADU: (CORTA) Não precisa ficar se explicando, Hilda. Eu já disse que entendi. Sou compreensivo! Mas você sabe que eu, particularmente, não gosto do Gaspar, não vou com a cara dele. Minha opinião!

HILDA: Você fala isso porque não o conhece, não deu abertura pra o conhecer. Senão, vocês já tinham se tornado amigos. Aposto!

KADU: (Sorri) Eu duvido! (T) Eu sei que você tá apaixonada por ele, amando. Mas como amigo, eu preciso ser sincero e te alertar. Eu vejo no Gaspar uma ambição, um desejo de querer se dá bem a todo custo. Acho até que ele pode ter começado a namorar você justamente por ser a filha do prefeito. Puro interesse!

HILDA: (Riso nervoso) Pera aí, Kadu. Agora você foi longe demais! (T) O Gaspar não é assim. Ele também me ama de verdade. Eu sei!

KADU: (Sereno) Ah, minha amiga. Não sei não, mas eu acho que você ainda vai me dar razão. Vamos esperar!

Em Hilda, balançando a cabeça negativamente. CORTA PARA/

 

CENA 06. ARREDORES DA ARENA. EXT. DIA.

Gaspar e Neon, ao lado de seus respectivos cavalos, caminham.

NEON: Meu Deus, cara. Isso é muito sério! Se por acaso você perde a casa, tu e o Zander vão pra onde?

GASPAR: Justamente por isso que tô tenso, preocupado. Mal dormi de noite.

NEON: Eu moro em quarto de pensão, então o único jeito vai ser você e o Zander irem pra casa do Horácio. O sogrão vai ter que aceitar!

GASPAR: De jeito nenhum! Até parece que não me conhece. (T) O tal representante me disse que eles dão um prazo. Quem sabe não pinta um novo rodeio antes do previsto?

NEON: Acho pouco provável. Mas quem sabe o Bartolo não tope?!

GASPAR: Não sei, mas alguma coisa tem que pintar! (Decidido) Eu vou dá um jeito, Neon. Mas minha casa eu não perco, não!

NEON: E no que eu puder ajudar, tô contigo! (T) E aí, vamo apostar uma corrida?

GASPAR: Bora!

Neon e Gaspar montam em seus cavalos e saem galopando. CORTA PARA/

 

CENA 07. CASA DE BARTOLO. FACHADA. EXT. DIA.

Pietro, sem camisa, lava o carro parado em frente. Algumas jovens passam pela rua e o repara. Pietro se molha com a mangueira enquanto ensaboa o veículo. MARIELA (Branca, alta, cabelos longos e loiros e com aproximadamente 55 anos) se aproxima.

MARIELA: Lava-rápido de qualidade, hein?!

PIETRO: (Sorri) É, tem que cuidar bem do carrão aqui. Ainda mais que tô de mudança.

MARIELA: (Sorrindo) Eu vim visitar tua mãe, querido. Ela tá aí?

PIETRO: Tá sim. Minha mãe, eu acho que tá lá no quarto. Mas pode entrar aí, Mariela. Fique de boa!

MARIELA: Obrigado! Com licença!

PIETRO: Vá lá!

Mariela entra. Pietro continua a ação. CORTA PARA/

 

CENA 08. HOTEL TORINO. QUARTO 107. INT. DIA.

DARCY (Branca, alta, cabelos longos e loiros e com aproximadamente 40 anos) deitada ao lado de Bartolo.

DARCY: É bom tá com você, é bom tá do teu lado, mas... Não é completo!

BARTOLO: Completo?

DARCY: Você sabe bem do que eu tô falando, Bartolo. Parece que falta algo, um pedaço, uma parte. Eu não me sinto completa mesmo estando aqui com você. Talvez porque eu saiba que daqui a pouco você se levanta e volta pra casa, pro seu lar.

BARTOLO: Cê sabia que seria assim quando topou vim comigo, Darcy.

DARCY: (Senta-se) Mas cê me prometeu que seria por pouco tempo, que não estava bem com a Emilis, que o casamento tava descendo ladeira abaixo...

BARTOLO: E é verdade.

DARCY: Então?!

Bartolo respira fundo.

DARCY: Cê tá me enrolando, Bartolo!

BARTOLO: As coisas não são assim.

DARCY: E são como? Feito passos de tartaruga?! (T) Olha, Bartolo, eu não vim pra cá pra ficar enfurnada dentro de um quarto de hotel, não. Meu papel aqui é ser sua sobremesa. Você vem saborear quando tem vontade, e depois que enjoa, cai fora!

BARTOLO: Não, eu/

DARCY: (CORTA) Trata logo de resolver isso de uma vez ou eu vou embora! Eu amo você, mas não nasci pra ser lanche. Sendo franca com você: Eu não tenho nada a perder!

Darcy, enrolada com o lençol, se levanta e vai em direção ao banheiro. Reação negativa de Bartolo. CORTA PARA/

 

CENA 09. CASA DE BARTOLO. QUARTO DE EMILIS. INT. DIA.

Emilis e Mariela sentadas na cama lado a lado.

EMILIS: Eu me sinto meio paralisada, Mariela. Estagnada, parada. Como se minha vida não tivesse andado, como se ela tivesse atolado aqui. Entende?

MARIELA: O que o Bartolo representa pra você?

EMILIS: Eu gosto muito do Bartolo. Ele representa muito pra mim. Mas também foi o motivo de minha vida ter se tornado isso. Eu não tô o culpando. Também tive minha parcela de culpa. Tinha 14 anos e já tava grávida e achando que minha vida ia continuar da mesma forma depois que eu botasse aquele ser pra fora... Ledo engano!

MARIELA: Emilis, como sua amiga e psicóloga, eu percebo que você é mal resolvida consigo mesma, que tem um ranço, magoas, rancores. Coisas que te deixa envolvida em uma energia pesada, pessimista, que te bota pra baixo.

EMILIS: (Riso) É que as pessoas gostam de se iludir, Mariela. E eu sou bem pé no chão, realista. Sei muito bem como são as pessoas e por isso não espero absolutamente nada delas. O amor não existe! Ninguém ama ninguém de verdade! As pessoas usam esse lindo nome de sentimento para usarem umas as outras. É isso que acontece!

MARIELA: Aí você já tá generalizando, Emilis. Você não pode ficar fixada numa única visão e esquecer que o mundo é recheado de milhares de sentimentos. Tem de tudo! Não é porque você não acredita no amor, que ele não exista.

EMILIS: Impossível!

MARIELA: Você não pode usar suas frustações e decepções como tabela pra definir o que é a real verdade do mundo. Não olhe as coisas apenas através do seu umbigo, das suas experiências. Porque aí vai ficar limitado. Pense que foi apenas sua experiência, a sua vida e ponto. (T) Cada um é cada um, Emilis. Ninguém é igual a ninguém, ninguém pensa totalmente igual a ninguém. (Segurando-a sua mão) Não deixe seu mundo ficar preto e branco, minha amiga. Por mais baques que você tenha vivido, por mais que você não esteja realizada com o que você é.

EMILIS: (Solta a mão de Mariela) É inútil, Mariela. Você não vai consegui me mudar. Tá gastando sua saliva atoa. Essa é a minha opinião, minha visão.

MARIELA: Exatamente! Apenas sua visão e não a lei da verdade. É isso que eu quero que você entenda, Emilis. (T) Minha intenção não é mudar você. Ninguém muda ninguém. A função do psicólogo é apenas levantar novos questionamentos, novas questões, interrogações, pra fazer refletir. E a partir de sua própria reflexão, é que você vai decidir se muda de direção ou não! A mudança só pode vim de você, de dentro de você. O mínimo que eu posso fazer é arar a sua terra pra isso.

EMILIS: Quando a vida me mostrar o contrário, eu repenso! Por enquanto só há teorias. E eu sou prática!

MARIELA: Eu sei que você usa essa armadura, essa capa dura, pra não deixar suas emoções falarem, transparecerem, pra não se mostrar fraca. Comigo você não precisa ter medo de ser quem é e cê sabe disso, né?! Mas não tenha medo de ser quem você é. Não é desfaçando a existência do buraco, que você vai eliminá-lo. Ele vai continuar lá, no mesmo lugar e talvez até se aprofundando cada dia mais e mais!

SONOPLASTIA: Nada Vai Mudar Isso – Cássia Eller.

Em Emilis, pensativa. CORTA PARA/

 

CENA 10. CASA DE BARTOLO. FACHADA. EXT. DIA.

SONOPLASTIA OFF. Pietro lavando seu carro. Um táxi pára próximo. LALÁ (Branca, baixa, cabelos pretos e lisos e com aproximadamente 19 anos) e ULISSES (Moreno, baixo, cabelo curto e com aproximadamente 21 anos) descem do veículo.

LALÁ: (Animada/Grita) Olha quem chegou, meu amor!

Pietro repara em Lalá, solta a esponja e aproximasse-se dela.

PIETRO: (Abraçando-a) Nossa! Como eu tava com saudade da minha menina!

Os dois se beijam rapidamente.

LALÁ: Amor, esse é o Ulisses. O amigo que eu te falei que vinha comigo pra também fazer faculdade aqui.

Os dois se cumprimentam.

ULISSES: (Reconhecendo) Eu me lembro de você! Claro! É o carinha do 2º ano. A gente estudou no mesmo colégio, não lembra?

PIETRO: Confesso que bem mais ou menos.

ULISSES: A perturbada da Lalá não quis me mostrar uma foto sua. Queria fazer surpresa. Mas se eu tivesse visto, reconhecia na hora!

PIETRO: Ah, perturbada ela é mesmo. Minha perturbada que eu amo!

LALÁ: (Ri) Ué, eu só queria deixar você ver ao vivo, Ulisses.

ULISSES: Parece que foi ontem. Voltou tudo na minha mente agora.

PIETRO: Bom, então eu devo ter te marcado muito, hein.

ULISSES: Um pouco! Lembro de uma vez que você me defendeu. Tava tendo um campeonato de futebol no colégio. Todo mundo comprou chuteira nova e eu fui de sandália. Eu era bolsista. E tinha que pegar o ônibus de Toureiro todos os dias pra vim pra cá. Aí quando eu cheguei lá daquele jeito, os meninos começaram a me zuar. Até que você viu, se aproximou, tomou a frente e disse que todos ali eram otários, por tarem fazendo aquilo comigo só porque eu era pobre. Disse que eles, de ricos, não tinham nada também. Pois só tinham o que tinham, porque os pais bancavam.

PIETRO: (Pensativo) Ah, agora eu tô lembrando...

ULISSES: (Segura o choro) E aí você me deu a sua chuteira nova pra me jogar. Me mandou tirar aquelas sandálias gastas e me entregou as chuteiras em mãos. Isso me marcou tanto. Até hoje eu nunca esqueci desse gesto!

LALÁ: (Comovida) Ah que fofo, meu Deus! Meu amor com o coração grande desde sempre! Não é atoa que eu amo esse homem.

PIETRO: (Riso tímido) Quê isso, amor! Eu só fiz o que era certo. Sempre detestei injustiça!

ULISSES: E agora sabendo que é justamente você o namorado da minha melhor amiga, me deixa muito feliz. Sério!

PIETRO: Pô, e eu também em te rever, cara! Tá muito bem! Boa pinta... (Riso).

LALÁ: Amor, ele vai ficar na nossa casa, tá?

ULISSES: Olha, eu não quero incomodar vocês. Eu posso me virar em outro canto...

PIETRO: De jeito nenhum! Lá tem quarto de hospede, dar pra ficar de boa. Mas é por quanto tempo?

ULISSES: Só até eu completar uma grana que eu já tenho e aí me hospedo em um hotel ou uma pensão. Só não vou logo agora, por causa das despesas iniciais com a faculdade.

PIETRO: Tudo certo! Vamo entrar?

LALÁ: (Animada) Bora! Ai, tô animada pra rever a Dona Emilis.

PIETRO: Não chama ela de dona, pelo amor de Deus! Se não, ela enfarta!

Todos riem. Pietro e Lalá, abraçados, entram na casa seguidos por Ulisses. CORTA PARA/

 

CENA 11. CASA DE GASPAR. SALA DE ESTAR. INT. DIA.

Zander sentado, assistindo televisão. Gaspar adentra o local.

GASPAR: Caraca! Tá um calor da porra hoje, Zander! Tô todo suando aqui.

ZANDER: Foi bom cê chegar logo, Gaspar. A Hilda tá aí.

GASPAR: A Hilda?

ZANDER: É. Chegou aí dizendo que queria falar contigo. Eu disse que tu não tava, aí ela resolveu esperar. E foi lá pro teu quarto. Tá lá até agora.

Em Gaspar, saindo do local em passos rápidos. CORTA PARA/

 

CENA 12. CASA DE JOSEFA. QUINTAL. EXT. DIA.

Josefa abre uma portinha e Elias entra.

JOSEFA: (Segurando uma vasilha) Toma! Pega esses doces e vai embora!

ELIAS: (Aproximando-se) Calma aí, Josefa. Vai nem me dá um abraço?

JOSEFA: (Retraindo-se) Sai pra lá, Elias. Cê tá sujo, fedido! (T) Pega esses doces e vai logo embora, pelo amor de Deus! Você sabe que o Kadu detesta que cê entre aqui e não entende porque eu te ajudo. Se ele te ver aqui, vai ser pior!

ELIAS: Onde conseguiu esses doces? Sim, porque eu sei que você tá na pindaíba. Tem a casa, um nome, a pose... Mas grana que é bom, nada!

JOSEFA: Foi ontem na festa de comemoração dos cowboys do rodeio. Agora vai, Elias! (Empurrando-o) RÁPIDO!

Elias sai. Josefa fecha a portinha e respira fundo. CORTA PARA/

 

CENA 13. CASA DE GASPAR. QUARTO DE GASPAR. INT. DIA.

Hilda andando em círculos reparando nos objetos do quarto. Gaspar invade o local.

GASPAR: Hilda!

HILDA: (Aproximando-se) Oi, meu amor. (Beijo rápido) Eu vim conversar com você. Acho que cê me deve no mínimo uma explicação em relação ao que aconteceu ontem na festa em sua homenagem. E eu sei que aconteceu alguma coisa, porque depois que aquele homem falou com você, cê mudou.

GASPAR: (Visivelmente desconfortável) Hilda, eu sei que você se preocupa comigo. Mas eu não me sinto à vontade em te falar isso. É um problema meu e... Cê sabe como eu sou!

HILDA: Então cê não vai me contar, é isso? Não confia mais em mim?

GASPAR: Hilda, entenda: Não é questão de confiar ou não. É questão de me sentir à vontade, de me sentir bem. Uma questão minha. Não tem nada a ver com você!

HILDA: Você não se sente à vontade comigo, Gaspar?

GASPAR: (Leva a mão a cabeça) Ah meu Deus!

HILDA: (Nervosa) Desculpa, mas é que cada vez que você tenta se explicar, acaba se embolando ainda mais! (T) Sempre fomos unidos, parceiros. Claro que você sempre foi turrão, teimoso. Mas se abria, falava, mostrava que comigo não tinha medo de se desarmar, de tirar essa casca de cabra macho invencível. (T) Poxa Gaspar, eu quero te ajudar. Mas se você insistir em ficar escondendo, fazendo mistério, eu vou começar a pensar que é alguma coisa séria, algo que pode abalar nossa relação.

GASPAR: Meu amor, não tem nada a ver com nós dois, eu já disse! É uma questão minha. Só minha! Por isso mesmo que não acho necessário falar, te deixar preocupada atoa. Eu sei bem como você vai querer agir e a gente pode acabar brigando.

HILDA: Seus problemas também me importam, Gaspar! E brigar por brigar, a gente já brigando.

GASPAR: Eu só quero te poupar, amor.

HILDA: Eu não quero ser poupada! Eu quero tá do teu lado, te dando apoio em todos os momentos. (T) E o pior é que mesmo eu te dizendo tudo isso, mesmo você já sabendo de tudo isso, cê insiste em não me contar. Não esperava isso de você, Gaspar. (Segura o choro) Tô muito decepcionada contigo. Muito mesmo!

Hilda se vira.

SONOPLASTIA: Amor de Criança – Vanilda D’ Paula.

GASPAR: (Segura pelo braço) Espera, Hilda!

HILDA: (Desvencilhando-se) Me solta!

Hilda sai e bate a porta bruscamente. Gaspar dá um soco contra a parede, visivelmente enraivado. CORTA PARA/

 

CENA 14. CASA DE BARTOLO. SALA DE ESTAR. INT. DIA.

SONOPLASTIA OFF. Emilis e Mariela vêm de dentro.

EMILIS: Muito obrigada pela visita, Mariela! Admito que eu tava mesmo precisando desabafar, botar pra fora algumas coisas.

MARIELA: Amiga é pra isso! E você sabe que, comigo, você pode contar sempre!

Pietro, Lalá e Ulisses adentram o local.

PIETRO: Mãe, olha só quem chegou:  A Lalá!

Reação de Emilis.

LALÁ: (Sorridente) Tudo bom, Emilis?

EMILIS: (Seca) Tudo!

PIETRO: E ela chegou e chegou pra ficar!

MARIELA: Me lembro de você! A primeira vez que você veio aqui, eu também estava.

LALÁ: Eu me recordo sim. A senhora é muito simpática!

MARIELA: Obrigada!

PIETRO: A Mariela é psicóloga, tem um consultório aqui em Touro Bravo e é praticamente da família. E já me ajudou muito com minhas questões de adolescente.

MARIELA: O Pietro é um menino de ouro, Lalá. Você tirou a sorte grande!

LALÁ: Eu sei. Eu vou cuidar muito bem desse ouro! (T) A gente costuma se chamar de casal raiz. Ele o homem raiz e eu a mulher raiz.

Todos sorriem, exceto Emilis.

MARIELA: Bem apropriado mesmo!

EMILIS: E esse outro homem aí quem é, meu filho?

PIETRO: (Aproxima-se de Ulisses) Ah, esse aqui é o Ulisses. Ele é amigo da Lalá e veio junto com ela pra também fazer faculdade aqui. Eu já estudei com ele e tudo na época do ensino médio.

EMILIS: E vai ficar na sua casa?

PIETRO: Por uns dias, sim, mãe!

EMILIS: Ah...

ULISSES: (Sem jeito) Muito prazer!

Emilis o repara por completo. Em Ulisses, tímido. CORTA PRA/

 

CENA 15. PREFEITURA MUNICIPAL. ANTESALA. INT. DIA.

SONOPLASTIA: La Plata – Jota Quest.

Secretária em sua mesa. Josefa adentra o local aproximando-se.

JOSEFA: Bom dia! Eu queria falar com o prefeito Horácio Santana, por favor!

SECRETÁRIA: Bom dia! Agora não será possível, senhora. O prefeito tá em reunião e não pode ser interrompido.

JOSEFA: (Pra si mesma/Baixo) Ai, que droga!

SECRETÁRIA: Mas a senhora pode se sentar e esperar aí, Tá bom?

JOSEFA: (Riso forçado) Obrigada!

SONOPLASTIA OFF. Josefa senta. A secretária sorri discretamente. Em Josefa, observando os quatro cantos. CORTA PARA/

CENA 16. RIO DE JANEIRO. EXT. DIA.

SONOPLASTIA: Sem Parar – Gabriel, o Pensador.

Planos gerais. CORTA PARA/

 

CENA 17. MOTEL DELANCE. QUARTO 122. INT. DIA.

Igor em pé, vestindo-se. Gina na cama, acordando. SONOPLASTIA OFF.

GINA: (Boceja) Aonde cê tá indo, Igor?

IGOR: Embora!

GINA: Mas como assim embora?! Daqui a pouco chega o café da manhã aí. Volta pra cama e vamos tomar juntos, vai!

IGOR: (Firme) Se toca, Gina! Eu só vim com você pra cá porque o instinto falou mais alto. Apesar cabeça dizer não, o corpo dizia sim e é difícil resistir... Enfim, você é mulher e não vai entender.

GINA: (Ri alto) HAHAHAHAHA! O que aconteceu aqui não foi por conta de forças involuntárias do seu corpo não, meu querido. Não tem nada a ver com situações como você andar pela rua, ficar excitado, e não ter como controlar, apenas disfarçar. O que houve aqui foi desejo, atração, fome!

IGOR: De sua parte!

GINA: Da sua também! Admita!

IGOR: Eu amo a Rafaela. Ou você duvida?

GINA: Eu não duvido de nada nesse mundo!

IGOR: Não troco a Rafaela por mulher nenhuma, Gina! Ela é minha mulher, parceira, amiga, amante, tudo! O meu coração é totalmente dela, e vice-versa.

GINA: Já o corpo...

IGOR: Os nossos corpos são apenas instrumentos de nosso trabalho. E eu e ela somos bem resolvidos quanto a isso. (T) Eu errei em ter vindo com você pra cá. Logo com você... A Rafaela vai ficar muito chateada, mas não vou esconder. E pode comemorar, porque se você queria jogar conflito na nossa relação, por pura inveja, cê conseguiu!

Igor pega sua mochila e sai rapidamente do local. Gina senta-se na cama.

GINA: (Pra si mesma) Eu penso é em mim! Você ainda não viu nada! (Respira fundo) Ah Igor, Igor. Você NUNCA mais vai esquecer essa noite...

Em Gina, sorrindo maliciosamente. CORTA PARA/

 

CENA 18. CASA DE LETÍCIA. FACHADA. EXT. DIA.

Carro parado na porta. George fechando o portão. EDSON (Alto, branco, com pincergs e muitas tatuagem, cabelos pretos e lisos, trajando roupas pretas, e com aproximadamente 27 anos) caminha pela rua com a cabeça baixa. George se vira de imediato e o repara disfarçadamente.

SONOPLASTIA: Pensando em Você – Paulinho Moska.

Edson abre o portão de sua casa, olha rápido pra George, que desvia o olhar. Outras pessoas passam na rua e reparam em Edson com olhar de estranhamento. George nota. Edson entra. George encosta em seu carro, pensativo. CORTA PARA/

 

CENA 19. LOJA EQUIPE A EQUIPE. SALA DE LETÍCIA. INT. DIA.

SONOPLATIA OFF. Letícia à mesa. George invade o local.

GEORGE: (Afobado) Pronto, tia. Cheguei!

LETÍCIA: (Assusta-se) Quê isso, George?! E que demora foi essa?

GEORGE: Desculpa, tia. Eu tentei chegar no horário, mas o trânsito tava um inferno.

LETÍCIA: Eu chamei pra vim comigo, mas preferiu vim no seu carro. Se tivesse saído meia hora antes, com certeza chegaria no horário.

GEORGE: (Visivelmente impaciente) Mas não deu, tia. Não deu! Eu não comando o trânsito do Rio de Janeiro, não.

LETÍCIA: George, não é pra você ficar irritado. Se eu tô falando é porque, ainda mais a partir de agora, responsabilidade e pontuação de sua parte vai ser essencial pra você mostrar exemplo.

GEORGE: (Confuso) Como assim?

LETÍCIA: Eu tomei uma decisão e já anunciei pra todos os outros funcionários.

GEORGE: Qual decisão?

LETÍCIA: George, eu decidi ir embora pra minha cidade natal, Touro Bravo. Não sei se definitivo, mas pelo o menos passar uma temporada lá. E você comandará a minha loja aqui. Você será o novo presidente da Equipe a Equipe!

Em George, visivelmente surpreso. CORTA PARA/

 

CENA 20. APARTAMENTO DE IGOR E RAFAELA. SALA DE ESTAR. INT. DIA.

Rafaela, sentada no sofá, fazendo as unhas. Igor adentra o local.

RAFAELA: Até que enfim, Igor! Não imaginava que a gravação de sua cena com a Tetê Rameira fosse durar a noite toda.

IGOR: Não durou. Eu que estiquei a noite.

RAFAELA: Cê levou a Tetê pra outro lugar depois da gravação?

IGOR: Não! (T) Rafaela, eu fiz uma besteira. Fui fraco, burro. Não tenho nem como me defender, porque realmente não existe defesa.

RAFAELA: (Apreensiva/Levantando-se) Ah meu Deus, Igor! Cê tá me assustando. Fala logo de uma vez! O que você fez de tão grave?

IGOR: (Inspira e solta) Rafaela, eu passei a noite com a Gina!

RAFAELA: O quê? (Riso nervoso/Incrédula) Não, cê tá brincando comigo. Com a Gina? Logo com a cobra da Ginália, Igor?

Rafaela encarando-o. Em Igor, tentando desviar o olhar. Clima tenso. CORTA PARA/

 

FIM DO CAPÍTULO!

 

Créditos sobem ao som de: Sem Parar – Gabriel, o pensador.