João e Maria

EPISÓDIO 05

ERRO E PERDÃO

João saiu porta a fora deixando Maria desolada, em prantos e decepcionada com ele. O rapaz saiu floresta a dentro sem rumo. Só o que queria era sumir, ser devorado por alguma bruxa bem monstruosa para não ter que voltar para casa e encarar a sua doce Maria naquelas condições. O que ele fez não tinha perdão. Ele agiu como um monstro, um animal no cio, um bêbado criminoso, ele havia de certa forma estuprado a sua amada menina.

A imagem de Maria chorando pedindo para que ele parasse não saía de sua cabeça, os gritos aflitos dela ecoavam em sua mente fazendo-o perder o rumo de sua caminhada. Ele não sabia pra onde ir, o que fazer, como ele voltaria pra casa e encarar aqueles olhos inocentes lhe acusando a cada instante de tamanho crime.

Estupro. Nunca se imaginou como criminoso. Nunca sequer pensou em fazer mal a alguma mulher, sempre as tratou como rainhas, como pedras preciosas e agora ele acabou de machucar a mulher da sua vida. A mulher que ele mais amava, o seu bem mais precioso, a sua Maria. O rapaz chegou a uma clareira e caiu de joelhos tendo a lua como sua companheira e testemunha de seu crime e chorou. Chorou de raiva de si mesmo, chorou de medo de perder sua menina, chorou por não ter sido homem o suficiente para ficar e dizer a ela que a amava e que ficaria com ela para todo sempre.

– Maria, me perdoa... Me perdoa... Eu não queria fazer mal a você... Eu te amo... Nunca quis te fazer mal. Me perdoa... MARIAAAAAAA!!!!! – Seu grito de dor acordou os corvos que bateram asas em revoada em direção a lua cheia. Logo uma figura conhecida aproximou-se e tocou-lhe o ombro.

– Então você fez...

– Quê? – Ele se assustou virando -se para encarar a feiticeira Charllote que sorria com escárnio de sua aflição.

– Desvirginou a doce Maria. Não era o que você tanto desejava? Fazê-la sua. Comê-la como uma ovelha na campina.Foi bom?

– Ora, sua maldita, como ousa vir aqui pra tripudiar do meu sofrimento? – João levantou-se e a encarou, furioso.

– Eu não vim tripudiar de você. Eu só vim saber se foi tão bom quanto você esperava, foder aquela vadia virgem.

Ele ergueu a mão para dar um tapa na face da bruxa mas ela o conteve só com um olhar.

– Não fale assim dela!!!

– Calma, Caçador. Eu sei que ela é uma boa menina. Sei que ela significa tudo pra você. Porém acho que agora você vai ter problemas para se aproximar dela novamente.

João estava paralisado pelo feitiço da Bruxa que continuava falando enquanto rodeava ele.

– Maldita... – Ele falava entredentes.

– Aposto que agora que ela foi estuprada por você deve estar com muito medo... E raiva.

– Eu não a estuprei, ela se entregou a mim. Estávamos curtindo juntos aquela brincadeira.

– Brincadeira que acabou em coisa séria. Pelo que sei, ela te disse não várias vezes e você não respeitou. Ela pediu pra você parar, mas você continuou forçando e forçando até romper o hímen dela. Se isso não é estupro o que seria?

– Como você sabe disso? Estava nos espionando por acaso?

– Digamos que meus amiguinhos que voam à noite, me dão o relatório completo. – Ela estendeu a mão e um corvo pousou em seu braço e ela beijou o bico do animal.

-Por que está fazendo isso? Se diverte com meu sofrimento? – João questionou, triste.

– Não. Na verdade, não. Eu só queria estar inteirada dos fatos só isso. Porque tenho certeza que amanhã ela irá me procurar e eu como mulher solidária e boa amiga irei acolhê-la e ouvir o que ela tem a dizer.

– O que você ganha com isso? –  ele questionou.

– A confiança dela. Caso você resolva me matar ela não deixará. Minha vida é preciosa, faço de tudo para preservá-la. Agora se aceita um conselho, volte amanhã pra casa, de preferência a tarde para que ela possa já estar mais calma, não toque no assunto, não toque nela, faça o mínimo possível para incomodá-la. Deixe que ela vá até você e que ela te procure para falar do ocorrido.

– E o que eu faço quando ela me procurar?

– Aja como homem. Peça perdão pelo mal que fez a ela. Ofereça a ela a sua cabeça, o seu coração. Deixe ela decidir o que quer fazer para reparar o erro. Dê a ela o que ela pedir. Aguente as consequências do seu ato animalesco.

João sentia cada palavra daquela bruxa acertar seu âmago como espadas afiadas perfurando seu peito. Ele deixava as lágrimas correrem por seu belo rosto silenciosamente enquanto ouvia a mulher.

– Vamos, levante-se. Se quiser, pode passar a noite na minha casa.

– Não. Prefiro ir para a cidade e beber um pouco pra tentar esquecer nem que seja por um momento toda essa merda.

– Você quem sabe. Se quiser ir é só bater na porta.

A feiticeira desapareceu numa nuvem de fumaça negra. João limpou o rosto e seguiu em direção a cidade.

****************

Maria despertou dolorida da noite anterior. Sua delicada flor ainda ardia e ela não conseguia esquecer os momentos marcantes daquela noite. A moça juntou os lençóis da cama e a camisola que usara e colocou tudo na fornalha queimando as provas de que fora deflorada pelo próprio irmão, lágrimas escorriam de seus belos olhos castanhos. Ela limpava o rosto com as costas da mão. Não queria se lembrar daquele momento que estava sendo tão bom e de repente se tornou doloroso demais.

A moça preparou o café e o tomou sozinha. No fundo estava preocupada com João que não dera notícias. Geralmente quando brigavam ele só saía no quintal mas quando a ouvia chorar voltava correndo para abraçá-la e sempre prometia que não ia deixá-la sozinha e que nunca deixaria ninguém lhe fazer mal. Mas dessa vez ele foi quem lhe fez mal, e pior não voltou para abraçá-la e protegê-la como sempre fazia.

Mas ela não podia se deixar abater. Com ou sem João, ela teria que viver. Mas precisava desabafar, não podia ficar com aquela dor apertando seu peito, precisava contar a alguém o que aconteceu, mas a quem confiar esse segredo? João era seu confidente, era a ele que ela contava tudo, ela nele que ela podia confiar, ele era seu herói, seu companheiro de batalhas e nas noites frias era ele quem a aquecia. Ele era tudo pra ela, agora ela estava com medo dele, ele a machucou e agora ela só queria distância dele. Então ficou pensando em quem poderia ouvir-lhe naquele momento.

*******************

– Maria? Que surpresa! Entre. – Charllote recebeu a Caçadora com carinho oferecendo-lhe sua companhia.

– Obrigada.

A morena entrou com uma cesta com vários pedaços de bolo dentro cobertos com um pano branco.

– O que a traz aqui, mocinha?

– Aahnnn, vim trazer-lhe isso e conversar um pouco. – Maria entregou a ela o cesto com o bolo.

– Olha, além de linda, é prendada. João tem muita sorte de ter você em sua companhia.

– É... Bom, eu... Na verdade, eu nem sei onde ele está.- Disse Maria, triste.

– Como assim, minha flor? Oh, meu Deus. Sente-se, vou servir um café para nós e você me conta tudo o que aconteceu.

A mulher serviu o café para as duas e Maria contou-lhe tudo, inocentemente. E Charllote fazia sua melhor cara de surpresa diante dos fatos.

– Ele... Ele te fez mal, minha criança? Não acredito nisso.

– Eu pedi para que ele parasse, mas ele não me ouviu e continuou forçando e forçando e foi quando eu senti aquela dor horrível que parecia que estava me rasgando toda. Eu consegui tirá-lo de cima de mim, mas já era tarde, já estava feito. – Maria colocou o rosto entre as mãos e chorou, a mulher a abraçou, solidária como uma mãe faria com uma filha.

– Eu entendo sua dor, minha linda, ele não tinha esse direito de te deflorar à força. Foi um erro muito grande.

– Eu teria me entregado a ele totalmente se ele esperasse mais um pouco. Eu teria gostado se não fosse assim. Ele me machucou. Me tirou sangue. – Maria, soluçava.

– Escute, criança. Ele errou muito em ter feito contra a sua vontade. Ele devia ter esperado e pedido sua permissão. Mas o sangue não seria evitado. Todas as mulheres sangram na primeira vez, as vezes até na segunda. É difícil, dói e ficamos ardidas por um tempo mas depois que o corpo acostuma, aí é só prazer.

– Eu não quero mais. Não quero fazer de novo. Tenho medo dele me machucar outra vez. Tenho medo de sentir tudo de novo. Estou com muita raiva dele.  – Maria falava enquanto Charllote segurava suas mãos.

– Calma, eu sei que é tudo muito errado nessa relação de vocês. Mas há outros homens por quem você possa se interessar e com certeza vai ser bom e prazeroso.

– Não. Nenhum outro homem vai tocar em mim. Nunca! João foi o primeiro e será o último. Nunca aceitarei outro homem. – Maria foi enfática levantando-se e cruzando os braços no peito.

– Tudo bem, acalme-se. Lhe darei um preparado de ervas para que você coloque na banheira e se banhe com ele. Vai se sentir melhor. Vai tirar o ardor e cicatrizar o seu hímen rompido para que não sinta tanta dor.

– Espera. Você é uma...

– Bruxa? Pode-se dizer que sim. Mas não sou dessas que comem criancinhas ou fazem maldades só por prazer. Eu sou mais de fazer coisas que beneficiem sem agredir os humanos. Gosto da convivência pacífica com eles e com vocês, mestiços caçadores.

Maria ficou chocada ao ouvir a mulher.

– Menina, por favor, não me olhe assim. Não sou um monstro como minhas irmãs. Eu vivo assim há mais de 1000 anos e nunca tive problemas com humanos, bruxas e trolls, eu sou pacífica. Não tenho interesse em fazer o mal.

Charlotte pegou um pote com uma espécie de óleo de ervas e entregou a Maria.

– Aqui. Pegue. Dilua isso na sua água de banho e sente-se dentro dela. Irá te aliviar. Se, caso resolver dar pra ele novamente, não sentirá tanto desconforto.

Maria pegou o pote, desconfiada. Ela aprendeu a não confiar em bruxas. Mas aquela não lhe dava medo ou vontade de matar. Ela não tinha os sinais das bruxas negras. Ela parecia falar a verdade.

**************

Maria chegou em casa e encontrou João com uma cara péssima. Ele havia acabado de tomar banho e vestia uma roupa leve, estava abatido, parecia ter chorado a noite toda e recentemente também. Ele mal a encarou, quando a viu entrar no quarto ele se encolheu como um garotinho assustado na cama abraçando os joelhos e olhando para o chão.

Maria depositou o frasco que tinha nas mãos sobre um móvel e se aproximou do irmão cruzou os braços sobre o peito e questionou com a sua melhor cara de durona.

– Onde é que você estava?

– Por ai. – Ele respondeu com um fio de voz.

– Por ai onde? – Ela insistiu.

– Na floresta.

– Mentira. Você não dormiu na floresta. Onde você dormiu, João?

Ele se encolheu mais no canto como se estivesse com medo dela.

– Num pulgueiro na cidade. Uma matrona velha me viu sentado desolado num banco da praça e me ofereceu abrigo. – Ele contou a verdade.

– O que você tem? Parece que está com medo de mim. – Maria falou fria e seca.

– Não... Não é medo. É vergonha. – Ele falou com lágrimas nos olhos se segurando pra não chorar.

Maria passou a mão no rosto, odiava ver João assim vulnerável. Ela só o viu assim uma vez na vida e sabia que se ele desmoronasse seria como uma barragem que arrebenta. Ele iria chorar até quase sufocar com as próprias lágrimas e ficaria por dias deprimido se escondendo como um caramujo em sua concha.

– João. – Ela sentou na frente dele e tocou em seu braço e sentiu que ele recuou e desviou os olhos dos dela. – Olha pra mim.

– Não posso.

– Olha pra mim, João. – Ela insistia segurando o rosto dele.

– Não posso. Não depois do que fiz. – Ele enfim deixou as lágrimas rolarem e escondeu o rosto entre os braços apoiados nos joelhos.

– João para com isso e olha pra mim. Sou eu, Maria. Sua irmã. Eu que deveria estar aqui deprimida, chorando, sentindo pena de mim mesma, mas não estou.

– Eu sou um monstro. Um animal. Um criminoso. Você nunca vai me perdoar pelo mal que te fiz. – Ele choramingava de cabeça baixa, envergonhado.

– João, tudo bem. Quer saber, esquece isso. Vamos tocar a nossa vida como antes.Como antes dessa palhaçada de você ficar agindo como se eu fosse sua mulher. Vamos ser irmãos de novo. Vamos voltar a nossa vida normal e esquecer isso. – Ela falava tentando esconder a dor em sua voz e parecer fria.

– Não posso esquecer o quanto eu fui rude e nojento com você. Não posso esquecer esse erro maldito que cometi abusando de você, Maria. Eu queria tanto que você pudesse me perdoar. – Ele se lançou nos braços dela como se morte estivesse chegando perto dele.

Maria o abraçou, o acolheu em seu abraço e o deixou chorar como um menino assustado nos braços da mãe.

– Shiiiiii...Tudo bem... Tudo bem... Calma. – Ela acariciava seu rosto e seus cabelos enquanto ele soluçava contra a curva de seu pescoço molhando -a com suas lágrimas.

– Me perdoa, Mariaaa! Me...Me perdoa. – Ele pedia com a voz embargada pelo choro e os soluços doloridos.

– Tudo bem, João, calma. Não fique assim. Você sabe que se fica muito nervoso e chora muito sua cabeça vai começar doer. E você quase morre quando acontece. Então se acalma, por favor. Se não daqui a pouco você está gritando de dor.

– Então promete que vai me perdoar? – Ele falou tentando se controlar.

-Sim. Depois falamos no assunto. Agora sossega que você está tremendo mais que uma vara de anzol. Anda, deita, eu vou deitar com você. Você precisa se acalmar depois conversamos.

Ele obedeceu se deitou e ela deitou junto e o aninhou em seus braços como ele sempre fazia com ela. Maria sabe que seu irmão tem um sério problema de nervos, que se ele chora muito sua cabeça dói de uma maneira que parece que vai explodir. Ele grita de dor e fica com febre de 40 graus fazendo seu corpo tremer todo e somente um preparado de ervas venenosas que sua mãe fazia era capaz de fazê-lo melhorar.

Maria percebeu que o irmão se acalmou e pegou no sono. Ela esperou mais alguns momentos e se levantou com todo cuidado para não acordá-lo e foi preparar seu banho.

Quando estava com tudo preparado, a moça entrou na banheira com o óleo que Charllote lhe deu e sentou-se dentro. O alívio foi imediato. Todo ardor que ela sentia, todo desconforto foi aliviado. Ela estava se sentindo nova em folha. Era como se nada tivesse acontecido.

– Nossa, como isso é bom... Obrigada, Charllote. – Maria agradeceu.

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Passaram-se algumas boas horas. João despertou depois de um bom sono e sua irmã estava na poltrona ao lado da cama tomando um chá e lendo um livro.

– Oi. Que bom que acordou. Está mais calmo?

João esfregou os olhos e se espreguiçou.

– Um pouco. – Ele ainda parecia receoso ao falar com ela.

– Muito bem. Levanta e vai comer algo. Você não comeu nada o dia todo.

Ele obedeceu e foi lavar o rosto e melhorar a sua aparência para depois ir comer.