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JUÍZO FINAL

Em cenário apocalíptico, o ‘Juízo Final’ veio para todos.

06/08/2018 17:03

Trama de Weslley Vitoritti chega ao fim como uma das novelas com público mais fiel do MEGAPRO


 

Na última quarta-feira (10) foi ao ar o tão aguardado capítulo final de uma das novelas mais emblemáticas do MV nos últimos dois anos, a aclamada ‘Juízo final’. Deixo de lado, quase completamente, o meu lado autor e diretor e me ponho na qualidade de um mero leitor que busca encontrar respostas às atitudes de tantos personagens dúbios e cativantes, que buscaram de maneira desordenada sobreviver a um apocalipse quase zumbi, que prometia levar consigo o maior número possível de almas.

Weslley Vitoritti é um autor de muitas faces, e elas são descobertas ao passar do tempo. Não que ele as crie. Elas nascem naturalmente junto da concepção artística de suas obras. Conversando com ele, aqui na categoria de amigo pessoal, percebi várias vezes a certeza dos caminhos que ele traçava aos seus personagens. É claro que as coisas mudam no decorrer da história. Ele me confidencializou, por exemplo, que Betina (Marjorie Estiano) ou Marcos (Caco Ciocler) seriam assassinados no fatídico capítulo que tirou a vida da dúbia e rainha dos haters Luísa (Carla Salle). Como acompanhamos, a coisa mudou de figura e a songamonga, digo, bela Luísa acabou partido dessa para uma melhor. Mas como teria Weslley, esse brilhante autor paraense, recontado um clássico de maneira tão moderna e atual e conquistado o público?

 

Marcos (Caco Ciocler) e Betina (Marjorie Estiano) se enfrentaram durante a novela inteira

 

A trama principal já é interessante, pois nos remete a clássicos como ‘A Favorita’ e ‘Selva de Pedra’. De um lado, Marcos (Caco Ciocler) tem completa noção de que errou no passado, mas se sente injustiçado por ter cumprido pena sozinho por um crime cuja mentora está livre, leve e solta, cometendo outros crimes de diversas maneiras possíveis. E esta mentora é Betina (Marjorie Estiano), uma mulher sedutora, e que mais duvida da inteligência das pessoas do que bola planos estratégicos para dar golpes. De fato, Betina é inteligente, mas preferiu segura-la para momentos estratégicos. Ou seja, Marcos, no auge de sua burrice, caiu feito um patinho, cometeu um assassinato e ficou anos na cadeia pagando por um crime que ele mesmo cometeu. Esses dois pólos não são bons, nem ruins. Então é mais difícil conseguir prever quem chega até a final. Eu chamaria a novela de reality show. Um show de realidade. Vilões, mocinhos, lutas, surtos, tiro, porrada, bomba, discussões, traições, cujo único objetivo é chegar vivo até a final e levar o prêmio maior. Mas, afinal... Qual será esse prêmio?

 

Thiago Amaral, Diego Amaral e Jesuíta Barbosa viveram Mateus, Jedson e Weslei

Aí está a doçura e ponto forte da obra. Chegar até a final é o meio possível para ganhar o prêmio. Toda pessoa que chega à final ganha? A resposta é óbvia. Mateus (Thiago Amaral) deseja ter uma vida feliz com Weslei (Jesuíta Barbosa) e não poupa esforços para isso. Jedson (Diego Amaral) sofreu e muito com a prisão do primo Marcos e a morte da mãe ocasionada por Betina. Os dois se reúnem e vivem uma belíssima paixão. Uma grande surpresa para o estudante da dramaturgia clássica.

Ora, é uma surpresa já que Luísa, filha do ex-marido de Betina, que fora assassinado por Marcos, também era uma jovem sofrida e teria muita ligação com Jedson. Neste momento, Vitoritti joga toda cartilha para bem longe e mostra versatilidade ao centralizar na figura de um casal gay como o principal da obra.

Na construção do casal, tenho que destacar a paciência e bela estratégica. Eu, como bom fã de Jane Austen, acompanhei até o fim para ver o final feliz de Elizabeth e Darcy em ‘Orgulho e preconceito’, e quando assisti o filme me liguei que ainda que o mundo seja outro e o desenvolvimento precisa ser mais ágil, é tão gostoso e apaixonante torcer pelo primeiro beijo, o primeiro contato de um casal. Bom, após 12 capítulos de construção, enfim, eles se beijaram e foi mágico para quem leu. Eu dizia que enquanto Jedson se questionava quanto ao amor que sentia por Weslei, o outro o contrário. Sabia da dimensão do amor que sentia, mas preferia se negar a viver esse amor.

Os injustiçados por Betina se reuniram e formaram assim um grupo #DoBemNemTanto, que buscou exterminar a vilã. Eu disse acima que a vilã contava mais com a burrice de seus oponentes do que com sua própria inteligente. A coisa começa a mudar quando ela se toca de que está sendo cercada de cobras (que coisa, não?), e que sua vida e sua liberdade estão em perigo. O plano de Betina foi infalível e aqui vai um destaque: Plínio (Reginaldo Faria). Que personagem era aquele? Execrável, mas ao mesmo tempo com um humor e sarcasmo icônicos. Nunca pensei que um vilão como aquele poderia despertar tantas nuances em meu cérebro. A forma com a qual ele humilhava o filho Ramon (Thiago Fragoso) não defendo, mas que ele entendia muito de como desestabilizar o filho, ah, isso entendia.

No início da trama, um problema. As pesquisas apontavam que Irina, vivida pela brilhante Viviane Pasmanter, era mais querida do que Betina. Nenhum autor gosta quando um personagem destinado a tal função ocupe o lugar de outro, que deve ter maior importância. Minha preocupação com o fracasso da Betina veio aí. O público não curtia quando a megera abaixava a cabeça para seu amor, o também maravilhoso Gustavo (Wagner Moura). Traumas que talvez o público tivesse de ‘Babilônia’, onde a vilã Beatriz (Gloria Pires) abriu mão de qualquer tática de sobrevivência por um amor inconseqüente por Diogo (Thiago Martins). Weslley contornou bem a situação e em pouco tempo Marcos, que era o favorito nas pesquisas, perdeu completamente o favoritismo para Betina. É certo que a tentativa dele de matar a inimiga foi interpretada como burrice extrema do personagem e fez com que #BetinaCretina ressurgisse como a grande amada pelo público. (NÃO IMAGINAM O PRAZER QUE É ESTAR DE VOLTA).

 

Viviane Pasmanter deu vida à perigosa e sarcástica Irina

 

Outra personagem maravilhosa foi Stephanie (Bruna Hamú). No início apontei semelhanças da jovem a Maria de Fátima, a icônica personagem de Gloria Pires no clássico ‘Vale Tudo’. Pouco tempo depois ela cria sua personalidade e mostra que não igual a personagem imortalizada. O autor sabe que ela é uma das minhas personagens favoritas e que muitas vezes é compreensível sua história. A vida a retribuiu no final, mas ainda assim segue icônica. Remontada a parceria, Stephanie e Betina causaram e aí voltaram as comparações entre Maria de Fátima e Odete Roitman (Beatriz Segall). Quando ficou sabendo da similaridade, o autor se chocou e disse que nunca havia assistido Vale Tudo. Coisa que mudou tempos depois, quando a novela foi reprisada pela segunda vez pelo canal VIVA.

 

Stephanie (Bruna Hamú), de Juízo Final, e Maria de Fátima (Glória Pires), de Vale Tudo

 

‘Juízo final’ era imprevisível. Não dava pra saber o próximo passo, tampouco quando se daria seu fim. Já estávamos no capítulo 28 e parecia que a novela tinha fôlego para mais 28. E durante essa reta final, Marina (Emanuelle Araújo) ganha certo protagonismo, enlouquecendo e quase morrendo no último capítulo. Um show. Cenas incríveis e que mostraram o potencial da personagem, que inicialmente parecia só mais uma louca de pedra que odeia o filho deficiente. Após perder o filho que esperava, Marina reencarnou Nazaré Tedesco e foi simplesmente maravilhoso.

Outro ponto positivo na trama foi o humor. Inicialmente confesso que fiquei meio assim com a pensão, mas com o passar do tempo compreendi a função deles e Zaira (Laila Zaid) e Ingrid (Luana Martau). A dupla foi perfeita na comédia e ficou famosa. Alô, Meca e Zuca? Temos coleguinhas na área.

 

As paraenses Zaira (Laila Zaid) e Ingrid (Luana Martau) divertiram o público

 

A morte de Túlio (Caio Paduan) foi um choque e o capítulo em que a cena foi /ao ar bateu recorde. Entretanto, como bom novelista, Weslley aos poucos foi dando pistas de que isso poderia acontecer. E vamos pensar positivo: caso Túlio não morresse, teríamos cenas icônicas de Marina? Não, né.

Ah, e pra mim, o melhor casal foi Jardel (Emílio Dantas) e Stephanie. Eles eram tortos e ficaram juntos no final. Talvez nem Weslley saiba a dimensão do poder desses dois. Foi incrível.

No último capítulo, o último embate. Betina x Marcos. Era o juízo final. Marcos mata Betina, Stephanie é condenada, e até o maravilhoso Clóvis (Irandhir Santos) teve um ótimo fim. Apesar de ter tido um último capítulo maravilhoso, temos que falar de Marcos Moreira Prates.

 

Bom, eu sou um admirador da dramaturgia. Todos sabem. Estudo desde o início até sua manifestação hoje. E, apesar de fraco e frágil, Marcos é forte pra dramaturgia. Janete Clair, a maior autora brasileira de todos os tempos, sempre foi a rainha dos personagens masculinos frágeis. Me coloco nos anos 70 e imagino o telespectador daquela época. Deveria sentar de frente a TV e pensar: “Será que esse personagem vai ser lembrado?” ou “Nossa. As mulheres são maiores nas obras de Janete”. Bom, quase 50 anos da estréia de ‘Irmãos coragem’, a primeira novela de Janete Clair a explodir os ponteiros, vemos que João Coragem ainda está marcado. E Cristiano de ‘Selva de pedra’? Um cara tão passivo, que foi capaz de quase destruir a vida de Simone, o amor de sua vida. Logo depois tivemos Carlão, o taxista que encontra uma bolada de dinheiro e que agora precisa saber o que fazer com ele em ‘Pecado capital’. Talvez Herculano Quintanilha seja um dos mais lembrados pelo público atual, já que recentemente a Globo refez a trama ‘O Astro’, de Janete, e conseguiu o Emmy Internacional. Antes de morrer, a diva nos entregou o emblemático político Lucas Cantomaia, que abriu mão da política para viver um amor com uma fotógrafa em ‘Eu Prometo’.

 

Personagens de Francisco Cuoco nas novelas de Janete Clair

 

Assim como cada um desses grandes personagens, Marcos apresenta a fragilidade necessária para ser lembrado. Carlão era embalado pela música que dizia: DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL NA VIDA DE UM SONHADOR. Marcos era embalado por uma música que, em sua tradução, dizia:

 

E eu vou ficar acordado à noite

Vamos ser claros, não vou fechar os meus olhos

E eu sei que posso sobreviver

Andaria no fogo para salvar a minha vida

E eu quero, quero tanto a minha vida

Estou fazendo tudo o que eu posso

Então outro vai por água abaixo

É difícil perder o escolhido”

Marcos foi derrotado. Mas não por Betina. Foi por si mesmo. Por não ter compreendido que estava por cima e que seria fácil apenas se arrepender e lutar pela justiça de verdade. Marcos sabia que estava errado, que não era a pessoa mais correta do mundo. Sabia também as conseqüências de seus atos. Sente muito por tudo o que aconteceu, mas sente ainda mais por si. Por ter entendido que não foi destruído. Por não ter levado o tiro que Betina levou, mas por olhar dentro de si e encontrar a mesma que o amor de sua vida. Ainda fica a dúvida se Marcos ainda amava Betina, mas de uma coisa eu tenho certeza: a morte desse personagem icônico entra para a história da webdramaturgia. Ele é maior que a morte, é maior que a vingança que ele mesmo organizou. No fundo ele sabe que foi como Betina, e sabia também o caminho por onde chegaria.

Marcos Moreira Fontes e Betina Matozzo partem da história de Weslley Vitoritti e entram para a história da dramaturgia.