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ANTES QUE O DIA AMANHEÇA

Opinião: Um Belo Amanhecer

16/09/2018 19:12

Confira a crítica de Weslley Vitoritti para Antes que o dia amanheça


Protagonistas de Antes que o dia amanheça

 

Por Weslley Vitoritti

Na noite da última quinta-feira (31), chegou ao fim, depois de 30 capítulos, Antes Que O Dia Amanheça, obra de João Carvalho. Com a proposta de uma trama mais cotidiana e humanista, o autor já disse por aí que se inspirou em obras como Sete Vidas (2015) para obter o clima da sua obra. Mas... Passados tantos capítulos, tantas páginas e mais páginas de roteiro, teria João Carvalho nos cativado, nos emocionado, nos feito refletir?

A resposta é sim! AQODA (como é carinhosamente chamada por seus fãs) parte da premissa de contar o reencontro de 3 amigos de infância: Malu (Pamela Tomé), Gabriel (Chay Suede) e Clara (Giovanna Cordeiro). Ao se reencontrarem no presente, os conflitos de todos se misturam e eles acabam descobrindo que suas vidas estavam mais entrelaçadas do que podiam imaginar. Malu vivia uma relação conflituosa com sua mãe adotiva, Simone (Carolina Ferraz); Gabriel descobriu que não era filho de Hugo (Zécarlos Machado) e Clara, além de ainda estar em conflito com sua adaptação ao gênero, que lhe é de fato, se vê apaixonada e correspondida por Caio (André Luiz Frambach) e, a partir daí, vive um eterno conflito de contar a ele ou não sobre sua transexualidade e o medo da rejeição pelo amado.

Malu e Gabriel enfrentaram diversos obstáculos, como a tresloucada Cecília (Bia Arantes), mentiras e omissões de ou de outro, mas o casal que conquistou o público foi Clara e Caio, carinhosamente shippado como #Claraio. A angústia de Clara sobre contar ou não ao amado sua verdadeira história a Caio comoveu o público. Ela chegou a partir em uma viagem pelo mundo ao lado dos amigos quando entrou em desespero ao acreditar que ele houvesse descoberto seu segredo, mas não adiantou muito já que Caio, ao descobrir que ela estava indo embora, foi atrás e embarcou com ela. Nessa viagem, ele quase morreu em uma explosão no México e Clara sofreu a dor da perda. Para a felicidade geral da nação e para o bem do autor, Caio não havia morrido (êêê...) Porém, a revelação da verdade sobre a história de vida de Clara foi o clímax dessa história de amor. Ela não a chocar Caio, mas surpreendeu o público, pois Caio se mostrou muito compreensivo e sem preconceitos. Depois de muitos altos e baixos, eles só mereciam o final feliz. Não é mesmo?

 

Cyria Coentro viveu a vilã Léia

 

A trama que começou sem nenhum vilão, só foi revelar, de fato, quem era a partir do capítulo 9. Demorou? Talvez para o público mais ansioso para odiar alguém, mas valeu a pena. Léia Ferreira (Cyria Coentro) simplesmente CA-U-SOU! Com uma vilã extremamente histriônica, o publicou não só aclamou, mas deitou para a personagem. Léia era tudo: Falsiane, invejosa, irônica, debochada, ladra, mas também sofria, chorava, se arrependia... Quem nunca encontrou com uma Léia pela vida? Mas a principal característica que fez dela um marco foi o seu humor. As tiradas, o deboche dela, eram simplesmente hilariantes. Era impossível você não rir com a personagem. Se na TV tivemos a antológica Carminha (Adriana Esteves) de Avenida Brasil, no MV temos a nossa Léia.

Destaco ainda os núcleos de humor localizado no fictício bairro de São Longuinho. Miranda (Denise Del Vecchio), Beliza (Solange Couto), Cosme (Rodrigo Simas), Letícia (Laís Pinho) e Damião (Nicolas Prattes) foram perfeitos, mas quem dominou a parada mesmo foram Meca (Cláudia Melo) e Zuca (Drica Moraes). Elas começaram como simples senhoras do lar e terminaram como estrelas do funk. João não teve pudor em desenvolver as comédias desses núcleos, escrachou, mas sem perder o viés mais humano, pois ali também houve espaço para o drama. Talvez nem todos tenham curtido esses núcleos como eu, provavelmente por ainda não terem entendido ou aprendido com a nossa rainha master da dramaturgia, vulgo Glória Perez que é preciso voar. Eu voei. E quem embarcou com o autor, se divertiu. E muitoooo!

 

Cláudia Mello viveu a divertida Meca

 

O saldo da trama é infinitamente positivo, mas não posso deixar de pontuar que o autor, infelizmente, foi infeliz na condução e construção do casal formado por Camila e Fabinho. Neste ponto, João meteu os pés pelas mãos e o negócio azedou mesmo. Tá que no decorrer o casal ficou mais “palatável”, mas aí já era tarde. Também pontuo o fato de alguns personagens terem sumido ao longo da trama como Shirley (Elizângela), Buço... Na TV poderia ser um vacilo imperdoável, apesar que parabenizo o autor neste ponto. Afinal, os personagens eram chatíssimos, sem graça e não rendiam. Isso mostrou habilidade do escritor para contornar imprevistos.

Houve espaço ainda para falar sobre transfobia, desigualdade social, feminismo, abandono afetivo e muitos outros, sem precisar levantar bandeira. Militância. Não houve escoramento e muito menos aquele discurso batido, apesar que o autor foi didático nessas abordagens em alguns momentos, mas era necessário. E é. Pelo menos até todos aprenderem a, no mínimo, respeitar o outro como ele é.

Com uma trama simplista e sem grandes pretensões, João escreveu a sua melhor obra. Autor de enormes sucessos como Ruínas (2017) e Tribunal de Rua (2018), João ainda se mostrava verde na construção de suas obras, no desenvolvimento delas e na concepção psicológica dos personagens. A carpintaria ainda era fraca, até capenga em alguns casos. Com AQODA podemos ver a evolução absurda em todos esses pontos, como se ele tivesse acordado e aprendido a estruturar suas obras. A contar tudo que queria e como queria. Diante disso, vimos a qualidade de seus diálogos se elevarem ainda mais. É engraçado que alguns anos atrás, EU, jamais pensaria que um dia veria João Carvalho se tornar o autor que se tornou. Um dos maiores por aqui, sem dúvidas. Isso prova que não adianta você ouvir elogios falsos e acreditar neles, achar que é perfeito. Porque você não é e nunca vai ser enquanto você ouvir apenas o que deseja ouvir, apenas o que massageia o seu ego. Mas, se você estudar e souber ouvir elogios e críticas verdadeiras e construtivas, você vai longe. Foi o que João fez. Parabéns, João!

A grande maioria dos autores ao escreverem uma obra querem passar uma mensagem. Se o autor quis passar alguma com Antes Que O Dia Amanheça, no meu entender, é a de que não dá pra você se lamentar, esperar que alguém faça por você ou te dê algo que você tanto quer, mas não se esforça para aquilo. É preciso lutar. Perseverar. Foi isso que todos os personagens da trama fizeram, que o diga Ana (Helena Rinaldi), outra personagem que cresceu de uma forma surpreendente. Em AQODA, cada um foi atrás do que desejava. Eles Choraram, sofreram, mas venceram.

 

 

Sempre desejamos atingir tal objetivo, mas muitas vezes não pensamos em como faremos para chegar lá e muito menos lutamos por ele. Então, pense, deseje, mas lute, pois antes de queremos um amanhecer, devemos nos empenhar em sobreviver a escuridão que o antecede.