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NOVELAS

MEIAS VERDADES

1 TEMPORADA


Tiago Machado
AUTOR

17. DÉCIMO SÉTIMO CAPÍTULO

O JOGO

— Ela foi embora. Pegou as coisas e o garoto e foi embora!

— Como assim ela foi embora? E onde está a Rute? — Ele já gritava nessa hora.

— A Rute foi embora. A filha precisou dela.

A prostituta se entregara antes mesmo do exame chegar as suas mãos. Fugir era a prova de que tudo o que ele imaginara era verdadeiro. Com passadas largas ele chegou ao piso superior e esquadrinhou o quarto. Tudo, aparentemente, estava no lugar. Suas mãos procuraram as joias que não se encontravam mais, as roupas foram levadas e no quarto do garoto também parecia normal, mas as roupas dele também foram levadas. Em um acesso de raiva Jorge jogou uma poltrona pela janela. Com a mesma velocidade que subira ele se juntara aos empregados no andar de baixo. Todos estavam paralisados de medo, mas na cabeça de Jorge eles riam dele. Ele precisava manter o controle, muitas decisões erradas eram tomadas quando as pessoas se entregavam ao calor do momento. Mesmo diante de situações de risco Jorge mantivera a calma e lograra êxito e dessa vez não seria diferente. Respirando fundo como se buscasse paciência, por fim ele disse: — Podem ir para casa. Estão todos dispensados. E se alguma palavra do que aconteceu hoje sair dessa casa eu saberei que saiu da boca de vocês. É melhor que isso morra aqui essa noite.

Ninguém se atreveu pronunciar nada, apenas concordaram resignadamente e saíram deixando o patrão na mais profunda solidão.

O sangue de Jorge fervia em suas veias e ele sentia necessidade de extravasá-la no pescoço delicado da prostituta que ele colocara para ser a senhora daquela casa. As luzes foram apagadas e ele vagava em meia a escuridão como se fosse um fantasma dentro da sua própria casa. Os pensamentos eram como relâmpagos que clareavam o céu em uma noite chuvosa. Eles não paravam de surgir e se tornavam mais obscuros com o passar das horas. Quanto mais pensava mais seus pensamentos se tornavam racionais e cruéis. Ele não estava acostumado a lidar com traições e perdas.

A iluminação do quarto ficava por conta do pequeno televisor que fora colocado na parede. O cheiro do banheiro invadia o quarto e a comida que Tereza pedira estava demasiado oleosa. Ao deixar a casa ela tentara contato com Jeremias, mas esse não atendia ao telefone e ela foi obrigada a se hospedar em um hotel. Ela não tivera tempo de vender as joias e não queria esbanjar o pouco que tinha em um hotel caro. O lugar era precário, mas iria servir. Nicolas adormecera e sentimentos de culpa a invadiam constantemente. Ela tentava se conformar de que o que fizera fora o melhor. O melhor para ela, para o filho e para o Jorge que depois de um tempo encontraria outra pessoa e ela o procuraria para se desculpar e os dois seguirem suas vidas. A vida seria mais simples se ela não tivesse se apaixonado por Jeremias, mas ela fizera escolhas e teria que assumir o preço que elas lhe exigiam. Tereza e o filho haviam fugido uma vez e conseguiriam, eles escaparam da poderosa e cruel máfia de corpos. Uma segunda saga os aguardava, mas o fato de estar com o filho respirando ao lado já a deixava repleta de esperança. Tudo ficaria bem. Os telefonemas de Jeremias continuavam sem resposta.

Jorge passara a noite em claro. Seus pensamentos não o deixaram dormir e a ansiedade corria por suas veias como correntes elétricas impulsionando-o a agir, exigindo dele uma posição. Rute chegou como de costume e estranhou não haver nenhum outro empregado na mansão.

— Onde estão os outros? — Perguntou curiosa.

— Eu os dispensei. Não quero que ninguém testemunhe os próximos acontecimentos. Serão dias difíceis.

— Do que você está falando?

— Você sabe que a Tereza fugiu com o amante dela. Que ela está esperando um filho dele, eu falei com o médico hoje bem cedo.

— Então é melhor deixá-la seguir o seu caminho. Ter fugido foi um favor que ela te fez. Com essa humilhação fora do seu caminho você pode retomar a sua vida.

— Tem coisas que você desconhece que vão além da racionalidade.

— Exatamente! Fazer qualquer coisa agora é agir com irracionalidade. Deixe essa mulher longe da sua vida, deixa-a colher os frutos das suas escolhas. Você não pode ser o protetor dela o resto da vida.  — Disse Rute segurando as mãos de Jorge.

Jorge sorria e Rute pensou que as palavras dela tinham gerado o efeito esperado.

Tereza o havia enganado. Havia brincado com a bondade com que ele a havia tratado. Mordera a mão que a alimentara e quando ele não pensava em ter filhos ou família, ela se mostrara vulnerável e fizera com que ele viesse gostar da criança e sem pensar duas vezes o trocara. As mulheres eram todas iguais, eram movidas a ganancia e nada seria suficiente para aplacar a cobiça que sentiam.

— Como a Tereza foi embora? — Os olhos de Jorge eram inexpressivos e sua voz equilibrada.

— Ela me disse que não poderia ficar nessa casa depois de ter feito o que fez. Ela juntou algumas coisas e pediu para que uma das meninas arrumasse as roupas do Nicolas. Um táxi veio busca-la.

— Que companhia de táxi? Eu quero descobrir onde ela está. Onde o motorista a deixou.

— Você quer aquela mulher de volta a essa casa depois de tudo o que ela fez? Eu não acredito Jorge! — Rute tentava não transparecer irritação, mas ela estava indignada.

— Eu vou te dar férias Rute. Consiga o número do táxi e depois pode sair de férias. O que acha de um ano?

— Do que você está falando? Quer que eu fique um ano fora? Você está me demitindo?

— Não. São só umas férias merecidas. Vai cuidar das suas coisas. Eu não vou precisar de você por um tempo. Quando eu precisar eu ligarei e você poderá voltar as suas atividades normalmente.

 

Tereza não poderia deixar o hotel enquanto não recebesse notícias. Angustiada e aflita ela foi até a casa onde Jeremias trabalhava. Exitante, ela esperou algum tempo na expectativa que ele aparecesse, mas ela foi obrigada a interfonar. Os olhos dele se arregalaram quando viu Tereza e Nicolas parados no portão. Ele presumiu que algo estava errado, pois ela nunca se arriscaria daquela forma.

Intrigado ele questionou: — O que você está fazendo aqui?

— Eu estou desesperada. Liguei uma porção de vezes, mas você não atendia... Eu fugi!

— Como assim fugiu? Você deixou a casa do Jorge? Por que você fez isso? — Jeremias estava nervoso. Não sabia como processar as informações que recebia.

— Nós precisamos conversar por isso eu vim.

— Onde você está? Eu tenho que voltar para o trabalho. Assim que for possível eu vou ao seu encontro.

Tereza passou o endereço do hotel. As horas se arrastavam. Ela não conseguia comer a comida oleosa do hotel e só de lembrar ela sentia vontade de vomitar. Poderia ser reflexos da gravidez, ela conhecia bem os sintomas. Como um mantra ela repetia em sua mente que tudo ficaria bem depois que Jeremias fosse ao seu encontro. Ele os levaria para a casa e ficaria feliz pela gestação. Eles seriam uma família de verdade. O lar seria regido pelo amor e mesmo vivendo com provisões limitadas ela finalmente seria feliz. Estaria ali por amor e não por gratidão ou medo.

O interfone tocou e Tereza atendeu com toda a urgência que o momento pedia. A recepcionista anunciou que um homem queria falar com ela. Por mais que seu coração necessitasse ouvir o nome Jeremias ela fez questão de perguntar quem era. Afinal de contas Jorge poderia ter ido atrás dela e descoberto onde ela estava.

Jeremias abriu a porta do pequeno quarto e sentiu o cheiro de esgoto e desinfetante de emanava do lugar. Tereza correu ao seu encontro e o abraçou demoradamente. Depois de alguns segundos nos braços dele ela desatou a chorar.

— Fique tranquila meu bem. Eu estou aqui! — Disse Jeremias tentando acalmá-la.

— Eu tenho algumas joias. Podemos vendê-las e recomeçar a nossa vida em outro lugar. Longe de tudo e todos.

— Você acha que o Jorge permitiria?

— Eu não quero saber mais dele ou as coisas que ele pensa e acha. Eu só quero esquecer esse pesadelo todo.

Eles pegaram as coisas e deixaram o pequeno hotel. Jeremias segurou a mão de Tereza e sorriu para ela. O sorriso dele tentava dizer que tudo ficaria bem.



FIM DO CAPÍTULO

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