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NOVELAS

MEIAS VERDADES

1 TEMPORADA


Tiago Machado
AUTOR

16. DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO

O MESMO CAMINHO

O médico estava sentado esperando para que Tereza se juntasse a ele. Sua pasta estava sobre a mesa de centro e alguns equipamentos disposto ao lado. O constrangimento era visível no rosto de Tereza.

— Desculpe tomar o tempo do senhor, o Jorge insistiu para que eu fosse procurá-lo, mas eu estou bem. Foi apenas um mal estar

— Eu vou aferir sua pressão. Se eu julgar necessário poderemos marcar uma consulta e você poderá ir ao meu consultório.

— Nós desconfiamos que ela esteja grávida. Eu passei por isso recentemente e os sintomas estão frescos na minha memória. — Disse Rute se juntando a eles e sentando no sofá para ver de camarote a cena que se desenrolaria.

Os olhares se cruzaram e Tereza pode ver a sagacidade no olhar de Rute. Ela sentia prazer na situação e Tereza sabia que ela não pararia até que a gravidez fosse comprovada. Até o presente momento não lhe ocorrera que Rute estava interessada em sua desgraça, mas lá estava ela, com as pernas cruzadas e um sorriso sádico nos lábios.

— Eu vou retirar uma amostra do seu sangue para fazermos alguns exames. — Disse o médico pegando uma seringa e um tubo para guardar o sangue coletado.

— Você tem medo de agulhas Tereza? Eu posso segurar a sua mão. — Prontificou-se Rute.

— Não precisa Rute!

Tereza se controlava para não esganar a mulher a sua frente. Logo Jorge teria os resultados dos exames e confirmaria a gestação. Confirmaria sua infidelidade. Uma série de pensamentos lhe ocorreu, mas ela estava feliz por esperar um filho do homem que amava. Um sentimento de covardia também a assolava, pois ela fora covarde ao não assumir que queria ficar com outro, mas Jorge a estava desprezando por tanto tempo e foi justamente quando ele lhe ofereceu a mão. Tudo seria desfeito e ela iria embora naquela noite mesmo. Se Tereza queria que tudo fosse diferente. Ela faria com que fosse. Iria ao encontro de um novo destino.

Tereza acompanhou o médico até a porta e assim que ele foi embora ela fechou a porta e se dirigiu ao quarto. Rute a tudo observava, mas não pronunciava nenhuma palavra, apenas mantinha o sorriso de satisfação nos lábios. As coisas estavam bem complicadas e Tereza precisava contar para Jeremias o que ela tenciona fazer. Quando o romance entre eles ficou mais sério do que eles imaginavam que se tornasse ele pediu demissão e com as referencias que tinha logo arrumou outro trabalho como motorista. Ter nas suas recomendações o nome de Jorge Aahbran abriam muitas portas.

A solução veio de onde ela menos esperava. Rute foi até o quarto e entrou sem bater. Desde que a suposta gravidez de Tereza veio à tona ela não se importava em manter as aparencias. Tereza se tornara como uma das empregadas.

— Você não vai conseguir manter essa gravidez escondida por muito tempo, logo o médico vai entregar os exames para o Jorge e aí a coisa vai ficar um pouco complicada.

— Eu não estou grávida! — Mentiu Tereza.

— Se você quer continuar a mentir a escolha é sua, mas eu vim lhe dar uma sugestão. Fuja! Pegue seu filho bastardo e fuja. O Jorge vai demorar a chegar. Pegue as joias que ele te deu e venda. Comece uma nova vida com esse seu amante bem longe daqui.

Tereza olhava incrédula para Rute. Ela não havia pensado na possibilidade de fugir, mas passara a considerar a alternativa.

— Vá agora. Enquanto você arruam suas coisas eu preparo uma mala com as coisas do Nicolas.

— Por que você faria isso por mim?

— Eu sei que é um pouco difícil de acreditar, mas eu me afeiçoei a você e ao menino. Ele é como um irmão mais velho para a Fernanda.

— Eu não posso fazer isso com o Jorge... Ele... Ele me ajudou muito.

— Você deveria ter pensado nisso antes de se meter na cama de um desconhecido e engravidar dele, agora é tarde para pensar no Jorge. Ele é uma pessoa conhecida Tereza. Como você acha que a mídia irá receber essa noticia? Será um banquete para os abutres.

— Você tem razão, é melhor eu ir.

— Sábia decisão. Eu vou arrumar as coisas do Nicolas.

Tereza segurou o braço de Rute e disse: — Você pode me fazer um último favor? Eu vou escrever uma carta e quero que você entregue-a para o Jorge.

— Eu farei com prazer, mas você tem que ser breve querida.

A vida é como ciclo que se repete, com personagens diferentes, mas que se repete. Ao chegar a aquela casa Tereza era uma fugitiva da máfia de corpos. Encontrara em seu protetor a possibilidade de recomeçar e após um período de abandono e desprezo encontrara em Jeremias um abraço reconfortante e carinho que precisava. Após olhar para Nicolas que ela acomodara no banco ao seu lado ela fechou os olhos e orou para que Jorge compreendesse os seus motivos e que algum dia a perdoasse por ter traído o homem que lhe dera uma segunda chance.

Rute foi até a cozinha e deu algumas orientações para a cozinheira e o grupo de criados que estariam de serviço no dia. Ela deixaria tudo pronto e sairia mais cedo. Ela precisava cuidar da filha.

— Desculpem sair mais cedo, mas a Fernanda precisa de mim. Vocês sabem o horário que o Jorge costuma chegar então o jantar tem que estar servido. Ele irá perguntar sobre a Tereza e vocês podem dizer que ela fugiu com o amante e que não voltará mais a esta casa. Se todos fizerem o seu serviço com excelência não teremos problemas ou reclamações. Todos entenderam?

A resposta afirmativa veio em uníssono. Ao entrar no apartamento Rute dispensou a babá e pegou a filha no colo. Fez algumas gracinhas com a pequena e depois sentou no sofá e pegou a carta que Tereza escrevera. Rute dava gargalhadas após ler cada parágrafo. A carta era bem comovente ela teve de admitir. Era delicioso ver a intrusa sair de sua vida como uma verdadeira ladra, sair às escondidas como uma fugitiva. Fora bem difícil e Rute teve quer ver seus planos minados pela cordialidade de Tereza milhares de vezes, mas finalmente acontecera finalmente ela estava fora e levara o filho junto. Rute foi até a chama do fogão e ateou fogo a carta.

— Olha filha, nós temos uma fogueira. Não é lindo?

A reunião se arrastava e já consumia uma dúzia de horas. Na tentativa de buscar paciência Jorge respirou e fechou os olhos. Nos últimos dias um único pensamento o tomara e ele não via a hora de por um fim naquilo tudo. As mulheres chegavam e partiam da vida de Jorge ele sempre soubera lidar com elas e ao longo dos anos reconhecia de longe uma oportunista. Ele reconhecia pelo cheiro as mulheres que só se aproximavam dele por dinheiro ou buscando algum outro tipo de privilégio. Mulheres de toda parte já haviam feito companhia em sua cama, mas ele escolhera a prostituta da Sardenha. Colocara dentro de sua casa, cobria tanto ela quando o filho de mimos e regalias para no final ela se deitar com outro e engravidar. Ele lhe oferecera tudo e era assim que ela retribuía? Não seria tão fácil assim. Como dinheiro se pode comprar muitas coisas, inclusive vingança!

— Senhores! Obrigado pelo comparecimento, mas eu tenho outro compromisso e continuamos com a reunião outro dia — Disse Jorge se levantando e saiu da sala. 

Ser dono de seu negócio tinham suas vantagens e uma delas era poder sair sem dar muitas satisfações. O médico lhe prometera o resultado dos exames o mais rápido possível e até lá ele deveria manter o controle. Manter o controle significava ser distante e mais frio que pudesse.

A mansão estava silenciosa. Nicolas já deveria estar dormindo. Uma secretaria o recebeu e pegou sua pasta e o paletó.

— A Tereza está no quarto?

— Não senhor.

— O jantar está pronto? Diga a ela que eu quero que ela venha jantar comigo.

— Isso não será possível. A dona Tereza não está em casa.

— E onde ela está?

— Ela foi embora. Pegou as coisas, o garoto e foi embora!



FIM DO CAPÍTULO

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