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NOVELAS

MEIAS VERDADES

1 TEMPORADA


Tiago Machado
AUTOR

02. SEGUNDO CAPÍTULO

OS FANTASMAS SE DIVERTEM

Os olhos de Rebecca corriam de um lado para o outro em busca de um rosto conhecido ou um sorriso sincero. Não havia nada de genuíno no lugar. Depois de alguns segundos ela se pegou sorrindo, era exatamente como tudo a sua volta. Jorge estava com as bochechas coradas da bebida que ingerira. Ele não desfazia a pose de homem sério e compenetrado. A festa só acontecera para realizar um capricho de Rebecca. Por ele, eles teriam as coisas seriam mais simples e discretas.

Todos se reuniram e estavam esperando para fazer um brinde pelos noivos. Jorge aguardou que todos fizessem silêncio e após alguns segundos começou o discurso:

— Eu quero agradecer a presença de todos e dizer que é um grande prazer celebrar esse momento com vocês. É bastante incomum eu beber em público e ficar um tanto quanto eufórico, mas não é todo dia que você tem a felicidade de se casar com uma mulher tão bonita. — Jorge olhou para Rebecca que sorriu timidamente.

Os convidados aproveitaram o momento de descontração e fizeram piadinhas com Jorge.

— Eu quero também...

— Um brinde aos recém-casados! —Gritou Tereza.

Todos se voltaram para ver quem havia ousado interromper o discurso de Jorge e quem sabia quem era a mulher ficaram chocados. Jorge gritou tentando conter a raiva em sua voz: — Obrigado. Alguém pode, por favor, retirar essa mulher? Ela não é bem vinda.

Rebecca ficou calada apenas observando a cena se desenrolar. A mulher não se satisfez e continuou a falar e andar em direção a Jorge.

— Ao homem mais poderoso e influente.

Rute sabia quem era. Fazia muitos anos que elas não se viam, mas aquele rosto era inconfundível. Com um gesto ela ordenou que a banda voltasse a tocar e correu para deter a mulher, mas nada adiantou todos prestavam atenção ao que intrusa falava.

— Você destruiu a minha vida. Tirou tudo que eu tinha, tentou me matar, mas eu estou aqui! Eu vim para te felicitar, seu assassino!

Logo seguranças cercaram a mulher a levaram para fora. Rebecca viu Jorge sair do salão e Rute a segurou.

— Melhor você ficar aqui e acalmar os convidados eu vou falar com o Jorge.

— Quem era aquela mulher Rute?

— Um fantasma do passado que resolveu aparecer para felicitar o noivo. Eu conto os detalhes depois que tudo se resolver. Tente distrair os convidados e aproveitar a sua festa. Eu farei o possível para nada estragar a sua alegria querida.

Rebecca se voltou para os convidados que estavam assustados. Todos pensavam que Tereza havia morrido, mas ela estava viva e voltara para reivindicar o que era seu. Rebecca estava tremula, ela não estava preparada para enfrentar a multidão. Lúcio observou a reação de Rebecca e não pensou duas vezes em agir.

— Vamos dançar. Concede-me a primeira dança?

Lúcio tomou Rebecca nos braços e a conduziu pelo salão, logo todos estavam rindo e dançando. Rebecca pousou a cabeça sobre o ombro de Lúcio e disse:

— Obrigada. Eu não sabia o que fazer.

— Eu percebi, mas não se preocupe logo todos vão fingir ter esquecido o que aconteceu.

— Eu preciso ver o Jorge ou simplesmente desaparecer. — Confessou Rebecca com a cabeça no ombro de Lúcio.

— Fica mais um pouco e espera a poeira baixar. A Rute está com ele. Desaparecer não é muito fácil quando estão todos literalmente preocupados com a sua vida.

— Você sempre surge nas piores situações. Mesmo com tudo o que aconteceu você ainda está aqui.

— Eu precisava ter certeza de que você ficará bem e olha que eu só me ausentei por alguns segundos. — Jorge segurou Rebecca com mais firmeza.

O contato fez com que o coração dela batesse mais forte. Eles eram reais e não o resto. Todos fingiam ter esquecido a encenação dantesca.

Jorge esbravejava com o chefe da segurança. O homem a tudo ouvia calado sem ao menos olhar para o chefe. Ele não sabia que a mulher em questão não era bem vinda e muito menos que era a ex-mulher do chefe.

— Eu fico impressionado. Como pode uma empresa de segurança com 200 funcionários ser tão incompetente.

Rute entrou na sala sem pedir licença e interveio a favor do chefe da segurança.

— Jorge eles não sabiam quem era e ela estava com convite.

— Rute, amanhã estará estampada em todos os jornais que aquela cretina voltou. Onde ela está?

— Os seguranças a colocaram para fora.

— Não! Eu queria colocar as minhas mãos nela.

— Gilberto, você pode se retirar. Eu preciso conversar com o Jorge.

— Pegue suas coisas e do seu pessoal, todos estão demitidos.

Gilberto não ousou protestar, apenas saiu da sala. Jorge estava estarrecido e andava de um lado para o outro. Rute observava escolhendo as palavras certas e por fim disse: — Você tem que voltar para a sua festa. Sua mulher está esperando por você. Coitada está totalmente perdida, ela não sabe o que fazer.

— Você no lugar dela saberia?

— Claro que sim! Eu te conheço tão bem. Você sempre fez péssimas escolhas.

— Do que é que você está falando?

— Da Tereza e dessa ninfeta com a qual você se casou.

— Eu deveria ter me casado com você. Escolhi a puta errada na Sardenha. Eu deveria mesmo ter me casado com você, afinal de contas você foi à única que não me abandonou.

— E eu aguentei calada todas as suas ordens e realizei todos os seus caprichos para no final ser apenas uma secretária do poderoso Jorge Aahbran.

— Rute, você bebeu?

— Não. Eu não preciso estar alcoolizada pra falar as coisas... Esse circo que você armou para exibir a vida perfeita que você leva é patético. Um homem como...

Jorge a interrompeu.

— Cala a boca Rute. Você sabe de onde você saiu e se você continuar com essa sua ladainha vai voltar pra lá. Você só tem o que tem graças a mim. Eu fiz você.  Nenhuma secretária do mundo ganha o que você ganha. Você deveria lamber o chão que piso.

Jorge se direcionou a porta e antes de sair Rute disse:

— E você vai voltar para o inferno...

— Quando eu for para lá eu preparo a sua chegada.

— Eu tenho certeza que tem muitos esperando por você. Eu já saí do inferno diversas vezes. Posso sair mais uma. — Finalizou Rute.

Jorge sentia o rosto pegar fogo, depois de muitos contratempos ele sentia vertigens e foi até o quarto para tomar o remédio da pressão. O corredor do andar de cima estava deserto, ele se encostou à parede para recobrar os sentidos que aos poucos lhe falhava quando um sussurro lhe chamou a atenção. Ele ficou parado e tentou adivinhar de onde estava vindo e logo identificou. A porta estava entre aberta e um casal fazia sexo urgentemente, o rapaz estava com as calças nos calcanhares e a moça com o vestido enrolado na cintura com os seios a mostra. Durante alguns segundos eles não notaram que Jorge estava observando tudo, mas logo os gemidos cessaram e eles se deram conta de que não estavam mais sozinhos.

— Jorge! Eu sinto muito— Disse Fernanda constrangida.

Jorge virou as costas e saiu do quarto deixando os dois sozinhos novamente. Wagner beijou-lhes os seios e continuou o ritmo. Fernanda protestou e levantou deixando o amante insatisfeito.

— O que foi? — Protestou Wagner.

— Você está louco Wagner e se o Jorge contar para o Bryan? Nós dois estamos ferrados. Você perde o seu emprego e eu perco o meu casamento.

— Ele nem ligou. Você acha que ele vai se importar com uma traição? Eu tenho certeza que ele tem dezenas de amantes.

— Você precisa dar um jeito e ter certeza que ele não vai falar absolutamente nada para o Bryan.

—Tudo bem, eu vou falar com ele. Fica tranquila, beleza?

Wagner foi ao encontro de Fernanda e a envolveu nos braços. Wagner sempre achara Fernanda uma beldade, mas não estava disposto a abrir mão da vida confortável que tinha por encontros sexuais esporádicos. Ele sabia muito bem como calar Jorge Aahbran.

Rebecca já estava aflita, estava cansada de dançar, beber e sorrir enquanto os convidados se embriagavam e enchiam a pança com canapés e doces. Jorge desde o incidente com a ex-mulher sumira e deixara Rebecca sozinha com os convidados. Lúcio estava sendo muito solicito e estava ao lado dela para o que ela precisasse.

— Lúcio, eu vou procurar o Jorge. Estou preocupada com ele. Muito obrigada.

— Disponha Rebecca. Foi um prazer servir de noivo substituto. — As últimas palavras saíram pesadas.

Rebecca lançou lhe um sorriso cordial e saiu do grande salão. Aos subir as escadas para ter acesso aos quartos, Rebecca viu Rute descer rapidamente os degraus e quase tropeçar nela sem ao menos dizer oi. Ela deveria estar preocupada com a festa. Rebecca procurou por todos os cômodos e não encontrou Jorge.

Francisco não era um dos convidados. Ele tinha certeza que o patrão nem sabia o nome dele. Francisco já trabalhava na mansão há alguns anos e procurava fazer sua função com o maior esmero. Ele queria ser reconhecido e elogiado, mas o patrão nunca lhe dirigia a palavra e ele era obrigado a prestar contas para a megera que se achava a dona da casa, ele tinha que se reportar a dona Rute. Ele não era um dos ricaços que estavam na festa, mas estava desfrutando de tudo. Antes que as taças de champanhe fossem distribuídas ele pegava uma para ele e festejava a sua maneira. Francisco sempre fora fraco para bebidas e logo sentia o frescor e liberdade que o álcool proporcionava. Depois de muitas taças ele tentou ir para sua casinha, mas as pernas não mais lhe obedeciam e ele sentia tudo girar ao seu redor, foi assim que ele sem pensar duas vezes escolheu um cantinho na cozinha e se deitou para descansar. Ele não tinha certeza do que viu ou ouviu, mas seus olhos viram a nova patroa dona Rebecca abrir a porta para uma mulher muito bonita e dizer.

— Vem mamãe é por aqui.

Francisco tinha dificuldade para raciocinar. A mulher que abrira a porta parecia com a dona Rebecca, mas era tão diferente. A dona Rebecca estava vestida de noiva e a mulher em questão estava de Jeans. Logo tudo se tornou um borrão preto e Francisco voltara ao estado de anestesia.

Um grito agudo reverberou por toda a casa e todos pararam no mesmo instante para saber de onde o grito fora proferido do andar de cima da mansão. Os músicos pararam de tocar e nada mais se ouvia. Rute foi a primeira subir os degraus e averiguar o que se tratava.

Rebecca estava debruçada sobre o corpo no chão. Jorge fora assassinado, o corpo jazia nu no chão de madeira, uma poça de sangue se formara sob a cabeça que estava deformada. Rebecca chorava compulsivamente.

— Meu Deus! O que fizeram com o Jorge?

— Rute! Alguém o matou!



FIM DO CAPÍTULO

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