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08. OITAVO CAPÍTULO

ENTRE NÓS


SOBRE O CAPÍTULO

Daniel fica mais integrado à rotina da escola. A sua amizade com Alex se torna mais estreita. Mas Daniel se sente cansado em conciliar trabalho e escola, e também sente falta de uma namorada.

For just one moment in time

I hear the holy back beat

Events and casual affairs

Just what is moving on

And what is going on

Quando voltaram pra escola, Alex ficou surpreso com a mudança dos outros alunos. Os outros enxergavam eles agora. O que não acontecia antes. Os caras enormes que jogavam basquete, que até iam jogar em outras cidades. Os meninos esnobes do terceiro ano. Todo mundo cumprimentava os dois. Eram até convidados pras festinhas. Antes, eles eram simplesmente ignorados. Não que isso tivesse alguma importância. Eles estavam acostumados a serem deixados de lado. E agora eles tinham um ao outro.

No caso de Daniel, os meninos simplesmente não compreendiam aquele ar maduro, de quem já tinha sofrido muito na vida. As roupas escuras, a falta de humor para rir das piadas grosseiras dos meninos mais atirados. Esse bando de virjão que nunca viu mulher. Nem sabem do que tão falando. A recusa em participar de trotes contra os novatos e de bater nos garotos menores. Até os defendia. Não tolerava injustiça. Pega alguém do seu tamanho, palhaço. Os outros acabavam se irritando com ele e paravam de puxar conversa. Fodam-se todos eles.

Os professores também não consideravam Daniel mais um caso perdido. Conversavam sobre ele na hora do café, dizendo que ele tinha talento, e que deveria ser incentivado e ajudado. Podia até ir pro Conservatório de Música. Mas alguém sempre perguntava: e os pais desse garoto? Por que ele é largado assim? Magro desse jeito? Será que esse menino mexe com droga? Ninguém sabia responder. Ele continuava trabalhando no mercado. Era cansativo. Mas ele não tinha alternativa. Pelo menos estava indo bem na escola. E ele pensava muito na mãe. Quando ia na casa do amigo, e via como havia carinho e amor entre eles, coisas que ele jamais teria, se sentia meio abandonado. Mas ele já devia ter superado isso.

Agora alguém sempre levava um violão, e Daniel, sempre que podia, dava uma palhinha. Alex ficava feliz em ver o amigo ficando popular, coisa que ele, que estudou a vida inteira naquele chiqueiro, nunca tinha conseguido. Devia ter aprendido piano quando era criança, como a mãe queria.

Mas as coisas estavam caminhando bem. Continuavam se vendo sempre que tinham tempo. Havia muitos livros para ler, muitas bandas para descobrir, muitas músicas para aprender a cantar, muitas fitas cassete pra gravar. E isso tudo era muito melhor quando podia ser compartilhado. Estudavam as matérias da escola juntos. Alex não se lembrava de ter sido tão feliz antes disso. Se sentia tão vivo. Já não se lembrava do dia em que Daniel cantou pela primeira vez na escola. Atribuiu a fraqueza à gripe, que realmente tinha pegado ele em cheio. Tinha até ficado de atestado. Porém, algumas vezes se pegava pensando que a boca do amigo parecia boca de mulher. E como seria beijá-lo. Lips like sugar.

Ele nunca tinha pensado nisso com a Jéssica. Não falava mais com ela. A amizade dos dois tinha sido muito legal, mas foi no tempo em que eles eram crianças. Nada daquilo importava mais, nada daquilo fazia sentido. O que fazia sentido agora era estar na companhia de Daniel. Ver a opinião dele sobre qualquer assunto. Rir de tudo que achassem engraçado. Um filando cigarro do outro no intervalo da escola. Daniel sentia a mesma coisa. Pela primeira vez ele tinha um amigo de verdade.

Quase feliz.

Chegaram as férias de julho. Uns dias para descansar. Daniel já fazia planos. Ia dormir até não poder mais. Estava até engordando. Com a vida mais sossegada, começou a sentir falta de sexo. A última tinha sido aquela louca do show. Não tinha coragem de sair com nenhuma menina da escola. Vai que dá algum problema. E não saía pra nenhum outro lugar, para conhecer pessoas. Assim ia ficar difícil. Começou a se sentir irritado e até com o pobre do Alex ele perdia a paciência. Meu Deus, preciso transar. A punheta não tava adiantando. Porém isso ia e vinha como ondas, logo ele esquecia. Dormia, lia, trabalhava, jogava bola na rua da casa do Alex com os menores. Isso não era tão importante. Era sim.

Nunca tinha ficado tanto tempo sem sexo, desde sua primeira vez quando tinha uns 13 anos. Foi com a filha da vizinha. Estavam todos brincando de esconde-esconde e justamente naquele dia, ele que nunca brincava, foi convidado a se juntar aos outros meninos da rua, pra achar os outros que tinham se escondido. Achou a menina. Na oficina onde trabalhava, ouvia todo tipo de histórias sujas dos homens mais velhos, e estava louco pra botar todas elas em prática. Na primeira chance que teve, arriscou. Deu certo. Daquele dia em diante, não parou mais. Algo nele tinha mudado. E as meninas percebiam.

As mães das outras meninas começaram a reclamar para a mãe dele. Seu filho aproveitou da minha filha. Isso era terrível. Como a mãe era muito religiosa, ficava escandalizada. Um menino. Uma criança de 13 anos. Meu Deus. Pelo menos não era viado. Se você virasse viado Daniel, juro por Deus, eu te matava. Já não basta ter nascido e estragado minha vida para sempre. Com que cara eu vou na igreja? Todo mundo fala. Mais vergonha do que eu já passo. Ele sempre quieto e reservado, nunca admitia que tinha feito nada errado. Nem sei do que você tá falando.

Na mesma época, descobriu as músicas. O vizinho de baixo sempre ouvia no último volume. A mãe odiava. Dizia que era música do diabo. Ele foi se interessando, e fez amizade com o vizinho só para poder saber o que era e ouvir mais de perto. Aquilo foi maravilhoso. Então tinha mais no mundo do que aquilo que ele via no bairro dele. Era incrível. Ele se identificava. As letras falavam com ele, falavam do que ele sentia, das coisas que ele vivia. Tudo fazia sentido. Não tinha importância se a mãe dele brigava com ele, o deixava muitas vezes sem comer e dizia que ele era um fracassado. Um dia ele iria embora. E deixaria tudo aquilo ali pra trás. Juntou dinheiro e comprou o violão. O vizinho o ensinou a tocar. Emprestava revistas, mostrava acordes. Ele tinha muita facilidade com o violão, aprendia rápido. E adorava.

Porém esse mesmo vizinho mostrou-lhe outras coisas. O primeiro baseado. A primeira carreira de cocaína. A bebida. Ele entrou de cabeça, porque aquilo o fazia esquecer de todo o resto. Era bom. Perdeu o emprego. Começou a repetir de ano. Estudava à noite. Como não tinha mais que levantar cedo, trocava o dia pela noite. Andava perambulando pelos bares. Conhecia muita gente. Muitas vezes nem sabia como tinha chegado em casa. Tudo eram lembranças vagas. Um corpo, um nome, um eu te amo dito entre sussurros. Ele nem lembrava direito. Mas também não se importava. Vivia como se estivesse em um sonho. Mas a mãe sim, essa se importava. Os momentos que ele estava em casa era o inferno. Mas não tinha pra onde ir.  

Até que aconteceu aquele caso com a filha da vizinha. A mãe em prantos, dizendo que ela tinha tomado uma cartela de remédio pra dormir. Quase não dá tempo de acudir a menina. Ficou não sei quantos dias no hospital. E ela tinha dito que a culpa era dele, Daniel, que tinha aproveitado dela e tirado sua inocência. Meu Deus, aquela lá se duvidar era mais rodada do que ele. Mas a mãe dele não quis saber. Era o pretexto que faltava. Ela não tinha mais obrigação nenhuma com ele. Primeiro a mãe queria que ele se casasse com a menina, para reparar o erro. Ah não vai casar? Então ponha-se daqui pra fora, seu anormal. Seu drogado. Seu merda. Nunca mais apareça na minha frente. É igual ao pai mesmo. Não tá nem aí com nada.

Enfim, ele tinha chegado até ali, não tinha? E estava indo tudo muito bem. Não ia se meter em problemas com as meninas da escola. Ele ia aguentar. Logo apareceria outra louca igual aquela do show, que não iria pedir nada dele. Além de uma boa foda.