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NOVELAS

ANTES DO FIM

SEM TEMPORADAS

COMPLETO


Com a vida arruinada, por uma desconhecida, Samantha é obrigada a voltar para casa como derrotada, mas o destino lhe confere a chance de dar o troco e sentir o doce sabor da vingança. Conheça a história de Samantha e Laura, duas mulheres diferentes que partilharão a mesma vida.

Tiago Machado
AUTOR

02. SEGUNDO CAPÍTULO

NUREMBERG, ALEMANHA, DOIS ANOS ANTES.

Um grande círculo de fumaça pairava no ar e outro pequeno se juntava a ele. Bernardo olhou o mover dos quadris nus de Samanta que caminhava em direção ao banheiro, ele permanecia deitado na cama aproveitando o pós-orgasmo. Samantha ligou o chuveiro, Bernardo pegou as roupas no chão e vestiu. Samantha era a mulher mais bonita que ele já conhecera. Possuía pele delicada e olhos penetrantes. Samantha fazia jus à fama das brasileiras, era um furacão na cama e uma dama por onde passava. Eles se conheceram durante uma palestra que ele dera na faculdade onde ela cursava licenciatura em artes. Durante o evento ele não conseguia tirar os olhos dela. Ele estava rodeado de alunos curiosos quando ela se aproximou e o saldou com um sorriso arrasador, ela trouxera um questionamento simples e ele considerou alguns segundos antes de responder, ele precisava segura-la ali, precisava de mais tempo com ela. Logo eles estavam tomando café e rindo sobre a dificuldade dela para aprender o alemão.

Bernardo era um professor universitário bem sucedido, se formara cedo e seus olhos azuis e seu corpo atlético sempre despertaram a atenção das alunas, mas agora ele estava completamente envolvido por ela, precisava dela.

SAMANTHA — Você vem ou não?

BERNARDO — Não, eu vou comprar cigarros e já volto.

SAMANTHA — Não demora!

As calçadas estavam cobertas pela neve que caíra na noite anterior, poucas pessoas passeavam pelas ruas, essas pessoas deveriam ser como ele, deveriam precisar urgentemente de alguma coisa. Quem em sã consciência sairia de casa e deixaria uma linda mulher esperando? Talvez alguém como ele que precisava desesperadamente repor o estoque de cigarros. Bernardo gostava da vida comum, gostava de ir à padaria pela manhã e comprar pão, gostava de observar as pessoas andando e imaginava para onde elas estavam indo. Ele entrou na lanchonete e pediu um café preto e um maço de cigarros. O café estava como ele gostava e ele não via a hora de voltar para os braços da sua brasileira.

Quando você se acostuma com uma coisa você para de ver beleza e para de reparar os detalhes. Bernardo já não se encantava pela cidade onde estava às coisas pareciam sempre às mesmas, ao sair da lanchonete uma moça passou por ele, ela estava extasiada com os detalhes da cidade. Bernardo virou na direção oposta para ir para casa, mas um grito o deteve. Ao olhar para trás a moça estava caída no chão e um pivete corria em meio à neve. Ele se aproximou e estendeu a mão para ela se levantar.

— Alles in Ordnung?

— Sorry. Naoi I speak German.

Laura se levantou e teve dificuldade para apoiar a perna direita que tinha um pequeno corte no joelho. Bernardo a ajudou entrar na lanchonete e pediu um chocolate quente para ela. Durante a conversa ele descobrira que ela estava fazendo um tour pela Europa e que estava distraída quando o pivete passou e puxou a câmera de sua mão, ela tentou segurar e com o chão molhado pela neve caiu e escorregou batendo o joelho. Bernardo era fluente em inglês e não teve dificuldade para se expressar.

— E você quis vir a Nuremberg no inverno?

— Eu adoro neve e adoro também o clima da cidade.

—  Você vai precisar de ajuda para voltar ao seu hotel?

— Não, eu acho que não.

Laura olhou para o jeans rasgado e tocou o ferimento.

— O corte foi superficial. E no Brasil nunca me aconteceu nada parecido.

— Você é brasileira?

— Sim. Você conhece? Já foi pra lá?

— Ainda não, mas meu interesse por lá é genuíno.

Bernardo olhou o relógio e se deu conta de que já passara muito tempo desde que ele saíra para comprar os cigarros.

— Eu tenho que ir.

— Obrigada pela ajuda.

O quarto era grande e espaçoso. Laura e seu pai estavam hospedados no suntuoso hotel no centro de Nuremberg. Laura se jogou na cama e tirou a calça rasgada e contemplou o joelho nu, o corte era superficial e logo sumiria. Laura ligou o ar condicionado e tirou o resto da roupa ficando de calcinha e sutiã, ela foi até o banheiro e ligou a torneira da banheira. Laura adorava sua imagem refletida no espelho, adorava saber que era linda, adorava saber que ela estava no controle de tudo. Ela mergulhou o corpo na água quente e relaxou ao colocar o joelho na água quente ela sentiu a ferida arder e a dor a fez lembrar-se da lanchonete e do cara bonito que a ajudara. O cara era bem diferente, ele exalava masculinidade, passava uma segurança. Uma imagem surgiu como um relâmpago e logo a raiva surgiu também. Laura lutara tanto para manter certas lembranças escondidas.

Laura fechou os olhos e quando abriu viu a água da banheira tingida de vermelho, seus olhos se encheram de lágrimas e ela tentou sair da água quente, mas suas pernas estavam fracas e sua mente vagava em algum lugar qualquer entre a realidade e suas mais profundas memórias. Ela abriu e fechou os olhos diversas vezes para voltar à realidade e percebeu que tudo não passava de uma alucinação e que a água estava normal, não havia sangue ali. Tudo estava na sua memória e permaneceria assim.

Samantha estava deitada na cama lixando a unha quando Bernardo abriu a porta do apartamento e entrou. Os olhos verdes de Samantha fitaram Bernardo e ele não resistiu e deu uma gargalhada alta e espontânea. Ele adorava ver Samantha daquele jeito, seu coração se alegrava em voltar para casa e encontra-la.

SAMANTHA — Eu já tinha ligado para a polícia avisando do sobre o seu desaparecimento, eles estão oferecendo uma recompensa para quem te encontrar.

BERNARDO — Desculpa meu amor.

Bernardo deitou ao lado de Samantha pegou a mão dela e começou a beijar.

BERNARDO — Eu tive um contra tempo, tive que ajudar uma turista brasileira.

SAMANTHA — Olha só, quer dizer que você está caridoso com turistas brasileiras?

BERNARDO — Um pivete roubou a câmera dela e como a neve estava escorregadia ela caiu e bateu o joelho no chão. E para compensar minha brasileira preferida eu vou te levar para jantar no restaurante novo.

Bernardo estava sentado no sofá esperando Samantha terminar de se arrumar, seus olhos estavam voltados para o celular e um aplicativo novo que ele baixara. Samantha andava de um lado para o outro. Pouco tempo depois a agitação parou e ela estava encostada no batente da porta. Bernardo sentou dificuldades para respirar. Como ela era linda. Samantha usava um vestido preto com uma transparência no decote, os lábios cheios e vivos estavam pintados de vermelho e o cabelo preto estava solto e as pontas levemente onduladas, os olhos verdes estavam marcados pela maquiagem leve. Ela não precisava muito para ficar ainda mais bonita. Bernardo colocou o celular sobre a mesa de descanso e levantou, mas imediatamente colocou a mão no bolso para disfarçar a ereção. Ele se aproximou e beijou o pescoço nu, laçou a cintura dela e a puxou para si.

SAMANTHA — Nós vamos nos atrasar.

BERNARDO — Eu não vejo a hora de voltar para casa.

Bernardo colocou o casaco de frio e ajudou Samantha a colocar o dela, eles desceram as escadas e entram no carro.

O lugar novo era uma mistura de restaurante e casa noturna, era o lugar favorito da juventude e todos se espremiam para entrar. Um manobrista levou o carro de Bernardo e quando ele e Samantha chegaram à entrada do restaurante uma grande multidão se aglomerava querendo entrar e sair da rua fria. Samantha segurou com força no braço de Bernardo e lançou um olhar interrogativo.

BERNARDO — Não se preocupe. Nós não vamos precisar pegar essa fila e ficar congelando aqui do lado de fora.

Bernardo procurou entre os seguranças o rosto conhecido e fez um gesto com a cabeça. O segurança retribui o gesto e abriu caminho entre as pessoas da fila para que o ilustre amigo e sua acompanhante pudessem passar.

Bernardo sentiu uma fisgada no casaco e olhou para saber quem o puxava:

— Você vai me deixar aqui do lado de fora?



FIM DO CAPÍTULO

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